O livro de Oleg Almeida fascina desde o título: "Memórias dum hiperbóreo". "Hiperbóreo" era como os gregos denominavam um povo que, segundo eles, morava além ou acima (hyper) do vento norte (Boréas). Um russo (e Oleg nasceu e se criou na Bielo-Rússia) pode considerar-se hiperbóreo. Entretanto, para os gregos, os hiperbóreos ficavam acima do vento norte, num lugar ensolarado, cujos habitantes viviam vidas paradisíacas. Para Píndaro, não era possível alcançar esse lugar nem por terra nem por mar. E aqui lembro o poeta Gerard Manley Hopkins, para quem era uma felicidade que não houvesse estrada régia até a poesia. "O mundo já devia saber", dizia ele, "que não se pode alcançar o Parnaso senão voando para lá".
Pois bem, chegamos a esse lugar ensolarado, a esse Brasil para lá da Rússia, e a essa Rússia para lá do Brasil, através da poesia de Oleg Almeida, por voos que nos levam da Grécia ao Egito, de Corinto a Alexandria, de Tebas a Mileto. Depois desse périplo espaço-temporal, regressamos à mesma Ítaca de onde partimos; regressamos, isto é, ao nosso agora e aqui; mas este se revelou muito mais complexo, rico, denso do que pensávamos antes da partida: e ficamos, como diria John Cage, com os pés um pouco acima do chão.
Antonio Cicero (4ª capa do livro)
A Arcádia hiperbórea de Oleg Almeida se apresenta numa contínua mudança de registros de ordem linguística, histórica e geográfica. Uma espécie de canção de exílio ou de memória, à maneira de um romance poético, de quem sabe o verso curto (stikhotvorenie) e se decide pelo poemeto. Quase uma intensa elegia, com alguma ressonância do Evgueny Oneguin de Puchkin. Um Oneguin da baixa-modernidade, herdeiro de modos culturais que se desvelam múltiplos, em línguas e camadas.
Os fragmentos dos diálogos de Oleg me levam a pensar em outros modos de conjugar exílio e memória, de seu mediterrâneo que são dois. Grego ao fim e ao cabo – imbuído de valores clássicos e, portanto, atuais. O primeiro mediterrâneo vem através de uma (embora mítica) quarta Roma, do monge Filofei, mais helenística do que propriamente grega. O segundo abre-se para Finisterra e envolve plenamente a imago brasilis – que constitui uma arcádia ao sul do exílio e de Deus. Como disse Darcy Ribeiro, uma Roma americana.
Essa geografia incondicional, aberta e flexível faz com que registros diversos ocupem esse romance da memória em versos, que Oleg evoca em seu panteão verbo-nominal – igualmente flutuante e ecumênico. Poeta de dois mundos. A construir uma síntese entre vertentes que deságuam na mesma bacia mediterrânea. Poesia aberta e emocionada. O poeta em sua perene transição. E nostalgia. Perspectivada sempre e a partir de uma demanda de espaço. Adesão e transparência do real.
Marco Lucchesi (orelhas do livro)