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MEMÓRIAS DUM HIPERBÓREO
(fragmentos)
II
Eu nasci muito longe daqui,
lá no norte severo,
na terra beata dos hiperbóreos
além deste mar bravio situada,
inatingível.
Ando a bendizê-la em honra da minha gente...
Uns estão mortos e não se importam com nada,
os outros, ainda vivos, lembram da época de orgulho
e trazem, iguais a mim, um peso na consciência.
Não me deixem mentir, meus irmãos:
havia quem os tachasse de fúteis,
havia, sim, quem acusasse de tudo quanto era pecado
ou simplesmente zombasse dos seus costumes;
mas não se desanimavam vocês – em resposta,
viviam de modo que mesmo o pior dos malogros lhes dava razão,
com gosto e ousadia viviam.
Límpidas eram as águas do meu país,
férteis os campos
e abundantes as safras dele.
Na minha casa, se bem que tivesse um só andar,
comiam-se ótimas carnes e pães excelentes,
bebiam-se vinhos de uva e de maçã,
cada dia, usavam-se finas toalhas e pratos ornamentados.
Tanto assim que, se vira, naquela altura,
uma menina chorando de fome,
descrera dos olhos – faz manha por ter perdido
sua boneca precária! –
ou, consternado, também chorara.
Distantes da minha realidade,
a fome, a peste, a guerra e outros horrores
serviam de tema às conversas da ágora
e de espantalho para crianças,
naquela altura.
Onde estará tudo isso:
águas e safras e zombarias,
dor do meu peito e chave da minha porta,
destroços do meu passado?
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Hoje estou lasso demais, faraó!
Não perguntes por quê,
atribui a vertigem que sinto
ao gelo das minhas recordações, que flutua na décima taça
[de ponche,
às flautas de Pã, cujo som lastimoso tortura os meus ouvidos,
e, quando me tratas afavelmente, ao medo de teu rancor.
Atribui-a, supremo, à febre que me sacode,
ao calor tropical, ao cansaço, a qualquer coisa,
e, caso não aches plausível
nenhum dos motivos da minha tristeza intempestiva,
manda bater os pandeiros e tímpanos,
faz as morenas esbeltas dançarem à luz dos archotes vermelhos,
que torna diáfana sua nudez,
e ordena ao mordomo falto de zelo
que jogue no fogo incenso e mirra às pazadas,
até se desvanecer o aroma da pátria minha
nos aposentos dourados de teu palácio.
VI
Quando eu tinha uns treze anos,
as árvores eram altas
e as palavras, sinceras.
Estavam vivos os meus avós,
ainda novos, os pais,
e não faltava, nas redondezas,
quem os achasse dignos de reverência.
Naquele tempo,
toda manhã, em janeiro como em julho,
simbolizava a felicidade:
cedo se levantava o sol,
um pires de moranguinhos já me esperava em cima da mesa,
e lá no telhado, suavemente
turturilhava um casal de pombos.
E eu vivia –
não consumia a vida
nem a deixava puxar-me pelas orelhas –
apenas vivia,
contente com poucas coisas que tinha,
e no lugar dos brinquedos surgiam os livros interessantes:
contos, diálogos e poemas.
E cada vez que a moça mais linda de toda a cidade
passava, de peplo curto
e uma fita purpúrea a segurar os cabelos luxuriantes,
defronte da nossa casa,
soltavam-se os meus olhos do velho papiro
e, fascinados, corriam no seu encalço.
De vagabunda chamavam-na os vizinhos,
e eu, numa blasfêmia inofensiva,
de Chipriana,
tanto o requebro dos seus quadris
exacerbava o meu anseio de ser adulto.
Depois da chuva,
o arco-íris juntava as extremidades do plácido firmamento,
e a janela do quarto, onde dormia,
dava para o mar,
pacato e cristalino feito um riacho.
Harmoniosos eram os nossos dias,
malgrado se sucedessem depressa...
Quanto à morte, ela não existia.
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