Entrevista concedida a Maurício Melo Júnior para o programa "Leituras" da TV Senado e transmitida em 28 de agosto e 03 de setembro de 2011

Parte I

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maurício Melo Júnior: Olá... Nascido na Bielorrússia, o poeta Oleg Almeida optou por escrever em português: acredita que a língua de adoção consegue expressar melhor suas emoções. Encantado com a inventividade literária do Brasil, naturalizou-se brasileiro e passou a trabalhar uma poética que afirma ser também brasileira. Toda esta trajetória está em nossa conversa de hoje. (...) O "Leituras" conversa agora com Oleg Almeida. (...) Oleg, vamos começar a nossa entrevista por uma provocação. É engraçado: você faz a poesia brasileira...

Oleg Almeida: Exatamente...

MMJ: Mas você é bielorrusso... Como é que isso acontece?

OA: Desde muito cedo – acho que desde adolescente – eu nunca me identifiquei como bielorrusso, tampouco como russo, em função do idioma que estava falando então, e que continuo falando aqui no Brasil, por ser tradutor profissional do idioma russo. Eu sempre me identifiquei como mestiço soviético, nascido na Bielorrússia, que naquela época fazia parte da ora extinta União Soviética, e fui criado nos moldes da grande cultura russa do século XIX (muito mais do que da cultura russa do século XX) e, paradoxalmente, da cultura francesa; é que depois, entrando na faculdade, já com uma idade mais ou menos consciente, eu estudei profissionalmente as letras francesas. E agora, além de ser esse mestiço soviético, tendo quatro sangues diferentes em minhas veias, nascido na Bielorrússia e criado nos moldes da grande literatura russa e francesa, eu sou cidadão brasileiro. Então, morando eu no Brasil, tendo família brasileira e fortes vínculos com este país, porque estou aqui há mais de seis anos, seria meio estranho, se continuasse a escrever em russo ou em bielorrusso... Domino, na verdade, os dois idiomas, tanto o russo quanto o bielorrusso, mas aqui no Brasil adotei o português como minha língua de criação literária, minha língua de criação artística.

MMJ: O português tem umas características muito curiosas. Por exemplo, o sotaque é muito curioso. O português que se fala no Brasil... não é que ele divirja, mas tem certas peculiaridades em relação ao português europeu. Inclusive o Acordo Ortográfico está dando confusão, até hoje, por conta dessas peculiaridades...

OA: Certo...

MMJ: Como você lida com essas variantes?

OA: Com trinta anos, ainda sem pensar em mudar-me para o Brasil, em instalar-me no Brasil, eu comecei a aprender, digamos assim, a língua portuguesa clássica, ou seja, a língua criada e falada em Portugal, porque o idioma português, como ele é falado no Brasil, não existe nas universidades nem no ambiente acadêmico da Rússia e dos outros países da antiga União Soviética. Por minha parte, era mera curiosidade, uma tentativa de alargar os meus horizontes, de ter acesso direto à literatura brasileira, já que também ninguém conhece lá os autores daqui, tirando Jorge Amado, que desde muito cedo foi traduzido (e continua sendo traduzido) para o russo, e ultimamente Paulo Coelho. Querendo ter um acesso mais amplo, mais abrangente à literatura e, em particular, à poesia brasileira, eu comecei a estudar o português. Depois... depois de conhecer minha esposa (a gente se encontrou em Moscou, em 2004) e já pensando em vir ao Brasil e tentar a sorte aqui, eu me concentrei mais no estudo da língua portuguesa, tal como ela é falada no Brasil. Mas, por outro lado, quando acabava de vir para cá, em 2005, fiquei surpreso e até mesmo chocado com a grande diferença do português do dia a dia, do português falado na rua, no supermercado, no metrô daquela língua culta que estava estudando, baseada nas obras, sabe, de Machado de Assis, de Graciliano Ramos, de Jorge Amado, que acabei de mencionar. Já aqui no Brasil, convivendo com as pessoas, descobrindo o país, pouco a pouco, nessa novidade toda das falas, dos cheiros, dos gostos, dos modos de viver muito diferentes – é que Brasília concentra em si as mais variadas populações, os mais variados segmentos da sociedade brasileira – aí, de certa forma, eu completei a minha aprendizagem.

MMJ: O grande poeta brasileiro José Paulo Paes estudou grego durante muito tempo...

OA: Isso...

MMJ: ... mas dizem que, quando chegou à Grécia, não entendeu nada.

OA: Foi mais ou menos a mesma situação.

MMJ: Agora, o que percebo em seus poemas, é exatamente essa linguagem... Há uma crítica que se faz às traduções que Mário Quintana fazia de Proust: o francês dele era um francês aprendido e não um francês vivido. Mas isso é o purismo dos proustianos que andam perdidos por aí... Agora, na sua poesia a gente percebe a frequência dessa linguagem mais literária do que cotidiana. Você percebe também isso em seu trabalho como poeta?

OA: Percebo, e até diria que, várias vezes, eu faço isso propositalmente, porque os temas que abordo na minha poesia são, na maioria das vezes, temas cultos, temas mais ou menos profundos e mais ou menos abrangentes que dizem respeito não só a um leitor concreto – quer seja brasileiro quer seja russo, tanto faz – como à humanidade como um todo, à humanidade em geral. Abordo esses temas cultos, por exemplo, no meu primeiro livro, Memórias dum hiperbóreo, que é a minha autobiografia lírica construída em forma de uma ampla alegoria, com base nas imagens e ideias da Grécia antiga, ou seja, de uma sociedade que deixou de existir há dois mil anos e mais que isso, e que só existe hoje em forma de fragmentos, de estátuas, de obras literárias que chegaram aos nossos dias. E seria meio estranho, se abordasse tais temas usando uma linguagem puramente coloquial, que eu ouço nas ruas de Brasília, das cidades satélites, do Rio de Janeiro e de São Paulo, quando viajo. Agora no meu segundo livro recém-lançado, Quarta-feira de Cinzas e outros poemas, eu tento, de certa forma, distanciar-me dessa linguagem. É uma tentativa... tão só uma tentativa. Eu não pretendo ensinar nem explicar alguma coisa a alguém; eu escrevo, digamos, o que fala minha alma. E se minha alma fala desse jeito, misturando as palavras cultas e sofisticadas com as palavras do dia a dia, então... eu acho que isso faz parte do meu estilo literário.

Parte II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maurício Melo Júnior: Agora... O trabalho da poesia é sempre um trabalho muito complexo, não é? Você trabalha com os versos livres, já é uma tradição hoje...

Oleg Almeida: Isso...

MMJ: ... não há nada de revolucionário nisso, certo? Você trabalha muito na busca de descrever o sentimento...

OA: Isso...

MMJ: Quer dizer: como é o mecanismo disso, porque essa descrição é uma coisa mais complexa de fazer, por conta do apego aos detalhes, às filigranas... Enfim, como é esse trabalho?

OA: Eu tento combinar na minha poesia duas coisas: a minha realidade, vivida, sentida nos dias de hoje, ou muito tempo, uns 25 a 30 anos, atrás, num país muito diferente do Brasil, nas condições que literalmente não têm nada a ver com a realidade brasileira de hoje, e minha imaginação, minha fantasia, uma tentativa de afastar-me dessa realidade. Ou seja, surge nos meus versos um certo dilema entre o imaginário e o concreto, o real, como, por exemplo, no meu primeiro livro. É claro que não vivi tudo isso pessoalmente e com toda a intensidade que tento reproduzir no meu verso – graças a Deus, não participei de nenhuma guerra; graças a Deus, minha cidade não foi apagada do mapa, como eu escrevo com base nos fatos reais da história grega usados no meu livro –, mas, por outro lado, eu vivi pessoalmente, sentindo isso na minha pele, dia após dia, uma catástrofe geopolítica, que foi o desmoronamento econômico, político, cultural da União Soviética. Como cidadão e patriota soviético, eu tive, na época, uma experiência muito drástica com isso, quando num espaço muito curto, em apenas 4, 5 ou 6 anos, uma das maiores potências mundiais simplesmente deixou de existir, simplesmente foi... aquilo mesmo, foi apagada do mapa, de modo que, hoje em dia, é outro país que tende mais para o lado do terceiro mundo do que para o do assim chamado mundo primeiro. E não queria escrever assim mesmo sobre as minhas vivências, sobre o desemprego, sobre as tentativas de achar o meu lugar dentro desse novo sistema, do capitalismo selvagem que sucedeu ao sistema socialista, pois não seria interessante. Seria um livro de memórias mesmo, seria uma espécie de diário que não queria fazer. Meu livro é profundamente alegórico, mas, atrás de cada linha, atrás de cada verso dele, existe um acontecimento real, às vezes indecifrável para as pessoas que não viveram naquela época e não presenciaram aquela sequência de ditos e feitos que eu presenciei, que eu vi, que eu senti. Eu acho que, dessa forma, tentei aproximar as minhas experiências de vida dos leitores de todo e qualquer país, inclusive do Brasil.

MMJ: Agora... há algumas coisas que me chamam atenção. Mário de Andrade dizia uma coisa interessante: street não é rua. Os sentimentos são outros, então... Eu conheço um autor do Rio Grande do Sul que foi criado ali, naquela fronteira, e tal; ele sempre se debate com o ritmo da linguagem, dizendo, às vezes: olha, eu tenho a necessidade de escrever em espanhol por conta de uma sonoridade que depois tento buscar no português e de que preciso, nesse primeiro ponto... A sua carpintaria, ela parte do russo ou do bielorrusso, ou já vem em português?...

OA: Não, de maneira alguma. Os meus dois livros de poesia foram originalmente escritos em português. Eu gastei mais ou menos três anos em adaptar-me ao Brasil e a seu modo de falar, tentando pegar essa melodia de um idioma muito diferente, a qual não tinha nada a ver com o idioma falado na Rússia ou na Bielorrússia (o russo e o bielorrusso também são línguas diferentes) nem com o francês que tinha estudado por alguns anos... Mas depois, quando eu passei a conversar direto em português, quando comecei a trabalhar como tradutor do russo para o português, quando tive essas primeiras experiências oníricas em português, as de sonhar em português – estou dormindo, minha esposa me chama, e eu, automaticamente, continuando a dormir e a sonhar, respondo em português e não em russo –, quando senti que no meu dia a dia, conversando com minha mãe ou com outros parentes por telefone, naturalmente em russo, tinha certas dificuldades em passar do português para o russo e vice-versa, inserindo palavras portuguesas, paradoxalmente, no meu fluxo verbal em russo e vice-versa também, eu achei que estivesse preparado para escrever em português: com muita dificuldade, é claro, porque a construção, a engenharia da palavra nos dois idiomas tão diferentes assim entre si, ela parte dos outros princípios, dos outros preceitos. Então, tive certas dificuldades em escrever... mas acho que não ficou tão ruim!

Parte III

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maurício Melo Júnior: Agora é outra coisa... Eu tinha lido o Memórias dum hiperbóreo há mais tempo, e agora é que fui ler os versos do Quarta-feira de Cinzas. Eles parecem mais brasileiros, não é? Eu acho que sua experiência está...

Oleg Almeida: Isso, isso...

MMJ: Uma temática mais brasileira, talvez...

OA: Exatamente...

MMJ: A busca por figuras do Carnaval, mas não só isso. É uma cultura de uma certa... não é a degradação social, não é isso, não... Antônio Cândido, o grande crítico literário brasileiro, contava uma vez que Vinicius de Moraes estava precisando de dinheiro, numa situação complicada de viagem, e disse a ele: "Bom, você tem como me ajudar naquilo?". Ele respondeu: "Eu lhe ajudo, desde que você escreva para mim um poema sobre o Mangue"... que era uma zona de prostituição no Rio de Janeiro. Mas logo esse poema, que é toda uma degradação? Não exatamente esse poema, porque você faz da degradação uma coisa muito bonita, ao tirar e salientar a pureza de um momento de degradação... Quer dizer, você busca mais essa temática da degradação social mesmo, com esse sentido também? Como isso acontece, sobretudo, no livro Quarta-feira de Cinzas?

OA: Está certo... Digamos assim. Com o meu primeiro livro, Memórias dum hiperbóreo, como você percebeu muito bem, eu tento acertar minhas contas com o passado, um passado que acabou, que nunca mais voltará, que não pode ser reproduzido por meios artificiais, um passado que existe lá no fundo da minha memória, lá atrás, e ninguém sabe onde. E o outro livro, meu livro novo Quarta-feira de Cinzas e outros poemas, é um livro muito mais concreto, muito mais realista e muito mais brasileiro, como também você percebeu muito bem. Eu tento interpretar o Brasil e a minha vida no Brasil do meu ponto de vista, quero compartilhar com o leitor as minhas vivências no Brasil. É claro que entendo o Brasil de modo diferente, não como um brasileiro nato. É que um brasileiro que nasce, digamos, no sertão pernambucano, em Alagoas, na Paraíba ou, pelo contrário, no Rio Grande do Sul ou em São Paulo, tem sua visão do Brasil que não tem nada a ver com a visão europeia ou norte-americana. Aliás, falando nisso, a imagem do Brasil está sendo muito estereotipada, lá fora, e em qualquer país – quer seja na Europa, quer seja na antiga União Soviética, quer seja nos Estados Unidos – o Brasil é, antes de tudo, um conjunto de estereótipos e, às vezes, de estereótipos muito desagradáveis, muito feios e repulsivos. E eu, de todas as minhas forças, tento evitar essa visão estreita, essa visão unilateral do Brasil, e talvez seja por isso que pego diversos fatos que percebo no meu dia a dia, como, por exemplo, no poema A cinderela, o qual faz parte do Tríptico auriverde inteiramente dedicado ao Brasil, à realidade brasileira. Eu simplesmente vejo uma garota vendendo jornais, aqui perto, na entrada da Esplanada dos Ministérios, outra garota vendendo doces ou um garoto que faz malabarismos no semáforo, e tento mostrar esses fatos do dia a dia, que vejo passando por perto, pela janela do carro ou do ônibus, sob um ângulo mais ou menos poético, mostrar que não é apenas uma pessoa que faz mecanicamente certas coisas para ganhar seu dinheirinho, alguns poucos tostões diários, para ajudar sua família ou gastar, não sei, com balas ou com drogas: eu quero mostrar a personalidade que está por trás dessa imagem. Eu quero mostrar que essa garota ou esse garoto está sonhando, talvez esteja sonhando, porque sonhar é uma das poucas propriedades mentais que diferencia o ser humano do animal, do mamífero; talvez esteja sonhando com dias melhores, com um país mais justo, um país de mais igualdade. Mas, ao mesmo tempo, não quero abordar aquela questão política, porque também seria uma coisa muito primitiva, se eu orientasse meus poemas pelas noções políticas. Não faço nenhuma espécie de propaganda, não quero provar nada a ninguém, não quero condenar nem exaltar, não quero nada disso. O meu negócio é, na medida do possível, observar a realidade e mostrar essa realidade aos meus leitores, e depois os leitores é que devem fazer suas conclusões, tendo dó desse garoto ou dessa garota, pensando como votar, em quem votar, o que fazer no dia a dia, para construir outro país, mais justo, mais voltado para o futuro... embora não diga isso nos meus poemas.

MMJ: Agora... eu não sei se esses poemas, de certa forma, têm alguma repercussão lá fora, se eles chegaram a ser traduzidos... Você fez algum trabalho nesse sentido?... 

OA: Não... não...

MMJ: Quer dizer, a sua preocupação é com o leitor brasileiro?...

OA: Exatamente... o brasileiro...

MMJ: Trocando com ele suas experiências daqui?...

OA: Exatamente, porque não quero, como já disse, ensinar nada a ninguém: ninguém está precisando de minhas lições ou aulas! Eu simplesmente quero compartilhar as minhas vivências, o meu passado, os primeiros vinte anos de minha vida que passei naquela sociedade muito igualitária que era a União Soviética, pois, apesar de toda a falta de liberdades civis, o Brasil, eu acho, tem certas coisas a aprender com aquela época, com aqueles governos, mas aprender, é claro, de modo inteligente, não pegando tudo e implantando no Brasil, que não vai dar certo... Ademais, eu tenho minha própria visão do Brasil e quero compartilhar essa visão com os brasileiros. Se os brasileiros gostam ou não, essa já é outra questão; é uma questão de crítica, uma questão de aceitação do meu trabalho literário, das minhas obras, por parte do público e da crítica. Bom... por enquanto, graças a Deus também, só houve críticas positivas, mas se houver críticas negativas, é claro que estou aberto a escutá-las.

MMJ: Maravilha... É isso! Oleg, obrigado pela sua participação, aqui no "Leituras": foi uma boa conversa...

OA: O prazer foi todo meu. Obrigado!