Entrevista concedida a Julianny Mucury para o programa "Tirando de letra" da UnBTV em 30 de agosto de 2013 e divulgada a partir de 10 de setembro de 2013

Parte I

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Julianny Mucury: Olá! O "Tirando de letra" de hoje, mais uma vez aqui, no espaço Cassiano Nunes, conta com uma presença internacional. Você vai entender já, já, por quê... Porque hoje eu estou com o poeta – eu acho, um poeta dos bons – Oleg Almeida. Prazer, Oleg...

Oleg Almeida: Obrigado. O prazer é todo meu.

JM: Teria que recebê-lo aqui, no programa. É que a sua produção literária começa depois que você chega ao Brasil.

OA: Exatamente.

JM: E a gente pode começar essa entrevista, eu acho, falando do título de seu primeiro livro, por conta dessa palavra...

OA: Certo...

JM: Você é um artista das palavras. Você brinca, o tempo todo, com o leitor, na escolha do vocabulário que faz... Explique o que é que é "hiperbóreo".

OA: "Hiperbóreo" é, na verdade, uma palavra grega que se refere a um povo mítico, o qual supostamente existiu, em tempos muito remotos, acima do vento norte. Em grego, essa palavra significa literalmente "aquele que existe, aquele que vive acima do vento norte", ou seja, na zona ártica. De certa forma, como eu nasci na União Soviética – um país que se encontrava no hemisfério norte –, exatamente naqueles lugares glaciais (inclusive, é um dos estereótipos que se referem à Rússia)... foi por isso que me autodenominei "um hiperbóreo", ou seja, uma pessoa que veio do hemisfério norte, que atravessou o equador e desceu para cá, para o hemisfério sul. Então, é isso aí.

JM: E isso mexe também com a sua formação, que é um pouco dupla, né?...

OA: Exatamente...

JM: Letras e Finanças... Com isso se fez?

OA: Eu me formei bastante cedo, em 1992, quando tinha vinte e um anos... formei-me em Letras, porque na época o mercado era assim. Eu sempre sonhei em ser um tradutor literário. E na época, nas condições históricas dos anos 90, na União Soviética que ainda existia, era um bom emprego, um bom trabalho: o tradutor literário gozava de muito respeito, de muito prestígio, inclusive porque poucas pessoas dominavam línguas estrangeiras – eu acho, como em qualquer país. E depois, quando a União Soviética faliu, quando começou outra época, uma época totalmente globalizada e dominada pelo mercado, eu tive de me virar, tive de procurar outros caminhos, estudar outras coisas, e cheguei a fazer uma sólida pós-graduação em Finanças Corporativas. Inclusive, ao longo de toda a década de 90 e no início dos anos 2000, eu trabalhei na iniciativa privada. Isso não tinha nada ver com a literatura, nem com a tradução literária nem, muito menos, com a poesia (porque a poesia, como se sabe, "não vende"), e só vindo para cá, somente radicado no Brasil, eu voltei àquele meu sonho antigo. Tentei realizá-lo em novas condições, aqui no Brasil, usando para tanto a língua portuguesa.

JM: Como é que foi a escolha, para vir ao Brasil? É uma mudança tão radical, Oleg. Você pensa: você vem do hemisfério norte, da ponta do Norte para o Sul, para esse calor tropical...

OA: Na verdade, é o seguinte. A União Soviética, onde eu nasci e passei os primeiros vinte anos da minha vida, foi um país profundamente cosmopolita, uma espécie de caldeirão onde se misturavam os mais diversos povos, dezenas e até centenas de povos. Ou seja, não existe – eu sempre digo isso – não existe nem russo nem bielorrusso nem ucraniano: todo mundo ali tem um sangue misturado. E eu, como produto daquela mestiçagem étnica, tendo começado a viajar e visitado vários países do mundo, tendo tido um contato mais ou menos sério com diferentes culturas, eu posso dizer que me sinto da mesma forma em qualquer país do mundo, como se estivesse em minha casa. Se eu me sinto bem, ou se eu me sinto mal, é outra questão que agora a gente não vai discutir, mas eu aprendi, ainda muito cedo, a adaptar-me, a conviver com as pessoas, a conviver com outras culturas. E quanto ao Brasil, por que é que escolhi o Brasil? Naturalmente, em função do meu casamento com uma brasileira, mas não só por isso... No Brasil eu encontrei as coisas que não existem, hoje em dia, em nenhum outro país do mundo: essa exuberância da natureza, esse modo de viver alegre, descontraído e informal... É que, como eu sempre digo, no Brasil são possíveis aquelas coisas que não acontecem nem na Europa nem nos Estados Unidos: o brasileiro vive informalmente... E, principalmente, no Brasil ainda existem os sonhos: o povo, até o mais simples e humilde, acredita sinceramente nesses sonhos, crê que eles podem tornar-se realidade. Nesse ponto, o mundo distribuído no hemisfério norte é outra coisa, de certa forma é outro planeta, sua percepção da vida é totalmente diferente.

JM: É muito bonito o que você fala, e isso se reflete também no caminhar da sua poesia. É que você começa escrevendo um livro muito intimista, eu acho...

OA: Exatamente...

JM: Do primeiro para o segundo livro, a gente percebe um poeta que se abre, assim, como se você se revelasse para a gente em Memórias dum hiperbóreo: até o próprio título já incita essa leitura da sua poesia. Mas, além de um pouco confessional, você faz uma literatura muito bem elaborada e arquitetada em termos da língua portuguesa. Como é que se deu esse domínio, como é que foi o estudo da língua portuguesa para você chegar a esse nível de domínio da língua para brincar desse jeito e compor sua poesia?

OA: Primeiro, vou revelar um segredo que, na verdade, não é um segredo. É que a língua portuguesa é bastante fácil de aprender... Por quê? Porque essa língua tem uma lógica interna, e, quando você compreende essa lógica, quando chega a compreendê-la, você passa a usar tranquilamente as estruturas semânticas da língua portuguesa. Eu, como filólogo, como uma pessoa formada em Letras, posso afirmar que o francês, por exemplo, já é um pouco mais complicado de aprender, porque é uma língua muito mais cerebral e menos espontânea que o português. Agora nem se fala na língua russa, que é a minha língua materna... Eu domino a língua russa e a bielorrussa, porque nasci na Bielorrússia, e tive contatos com vários outros idiomas, durante as minhas viagens, nem que fosse apenas como turista. Por outro lado, depois de radicado aqui no Brasil, que é, como disse Pier Paolo Pasolini, "o último país feliz do mundo" (ele disse isso nos anos 70, mas eu acho que, de certa forma, o Brasil continua sendo assim), a impressão que me produziu o Brasil, com essas cores exuberantes, com esse sol, com essa lua que fica literalmente acima da nossa cabeça, tão perto da terra...

JM: ... e está, aqui no cerrado, maior ainda, ganha outra proporção...

OA: ... esses cheiros, essas palavras, esses cantos... A impressão foi muito positiva, e, apesar de todos os problemas que estava vivendo no Brasil, eu decidi que valia mesmo a pena de aprender o português, porque seria estranho, afinal de contas, eu morar aqui, eu ter meu emprego e minha família aqui, ter a cidadania brasileira, fazer parte do cenário brasileiro e, ao mesmo tempo, não falar português, isso seria... muito incorreto, digamos assim. Às vezes, dizem que os estrangeiros têm muita dificuldade em aprender o português, que começam a enrolar a língua... essas coisas... mas eu acho que se trata, neste caso, mais das pessoas que não se dão o trabalho de aprender o idioma daqui, nem têm muito interesse em aprendê-lo. O meu caso, nesse ponto, foi diferente.

JM: Isso se revela muito na sua poesia. Você usa uma terminologia muito forte, que é apatriada (do verbo "apatriar-se"). Com que demanda você a usa, assim, para si, como isso lhe cabe?

OA: Na verdade, já me acusaram também, algumas vezes, de escrever difícil, de fazer coisas difíceis na minha poesia, mas isso é intrínseco, eu acho, porque, quando ainda era muito novo e falava exclusivamente russo, já gostava desse palavreado difícil, gostava de me exprimir de um jeito meio complicado. Isso vem da minha infância ainda e da minha adolescência. Mas, se eu falo difícil em russo, é que eu penso difícil; e se eu penso difícil, eu falo difícil em português também.

JM: Mas não é uma poesia difícil em absoluto; ela requer mais cuidado, requer um leitor atento...

OA: Eu diria, um pouco mais de atenção mesmo...

JM: Mas não é uma poesia hermética. Sua poesia tem um calor, assim...

OA: É...

JM: E esse calor explode na Quarta-feira de Cinzas, quando você se abre para essa percepção do mundo e registra a sua visão, começando com uma mulata... com uma poesia que vai... Você brinca com os haicais. Eu acho o haicai um campo extremamente difícil, porque você tem pouco espaço...

OA: Exatamente...

JM: ... para causar uma impressão grande...

OA: ... ou seja, para inserir nessas três linhas – nem linhas, mas sílabas (5-7-5), isto é, num esquema formal muito rígido. E você precisa enquadrar o mundo inteiro nisso. Por exemplo, quando eu quero expressar meu descontentamento com o mundo globalizado, com o mundo que está ficando cada dia mais igual, cada dia mais uniforme – em todos os países você encontra as mesmas coisas, seja aqui no Brasil ou em qualquer país europeu, nos Estados Unidos ou na Rússia, em qualquer lugar –, quando eu quero, por exemplo, expressar este meu descontentamento, eu faço o primeiro desses haicais: "Sou marciano; / vivo, porém na Terra – / que desencontro!". Assim, não é preciso falar muito para expressar esse sentimento meu. E também, por outro lado, os meus livros passam do pessoal ao geral. O primeiro livro, Memórias dum hiperbóreo, é a minha autobiografia lírica. Eu escrevo sobre a minha vida, é claro que em forma de uma extensa alegoria, cuja ação se desenrola na Grécia antiga, ou seja, na época clássica que é, de certa forma, o berço de toda a civilização ocidental, mas esse é um livro sobre mim, sobre os meus sentimentos, sobre o meu passado...

JM: Você menciona seus pais...

OA: Exatamente... ou seja, eu escrevo... é tudo verdade, só que uma verdade...

JM: É isso que queria perguntar, porque a gente nunca sabe: entre o autor e o eu lírico...

OA: Certo...

JM: ... onde é que está a fronteira... Você poderia ter brincado o tempo todo.

OA: É tudo verdade...

JM: É confessional?

OA: Exatamente... é uma poesia confessional. É tudo verdade o que escrevi, só que, para decifrar essa verdade, tem-se que conhecer mais a fundo a minha biografia e as condições históricas em que eu vivi antes de escrever esse livro. Agora Quarta-feira de Cinzas é um monumento, digamos assim, à minha brasilidade, é minha visão pessoal do Brasil...

JM: A evocação do Carnaval... o que também é muito interessante...

OA: Exatamente... Mas o que eu quero dizer, o que me incitou, inclusive, a escrever esse livro, é que nos países europeus, por exemplo, existe uma visão muito estereotipada do Brasil – que no Brasil só há Carnaval, futebol... é na melhor das hipóteses... e na pior das hipóteses, há bandidagem, pó mágico e qualquer coisa... E eu, de certa forma, queria desmentir essa visão estereotipada. Eu não gosto de estereótipos, não admito os estereótipos, e nesse livro eu escrevi que o Brasil é não só o Carnaval. O Carnaval é uma coisa muito mais ampla do que apenas uma festa que dura esses quatro ou cinco dias... não é apenas uma festa. É um modo de viver, é o modo de substituir essa realidade chata, essa realidade muitas vezes negativa, impactante, por uma percepção mais alegre, mais aberta, mais informal do mundo. E talvez seja um modo de escapar dessa realidade, de dançar, brincar... de viver dançando e brincando, viver sem se prender a essas coisas rígidas, aos esquemas, sem se enquadrar nos esquemas nem seguir alguma filosofia de vida predeterminada. E um bom brasileiro vive assim, reinventando-se a cada passo, fazendo coisas que aparentemente podem não ter muita lógica, mas que têm sua lógica interna...

JM: Hum...

OA: E essa é uma lógica da carnavalização.

JM: Aí a gente para, a fim de você respirar, porque no próximo bloco vamos falar um pouco também da versão "Oleg-tradutor". Fique aí, que a gente volta já, já...

Parte II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Julianny Mucury: E nesse segundo bloco a gente volta, e você já me provocou para lançar os tentáculos sobre a sua poesia, no sentido da carnavalização. É uma coisa que Bakhtin explora muito bem, né? E é interessante, pois o que acontece aqui no Carnaval não é concomitante ao contexto da carnavalização bakhtiniana, por exemplo, mas está dentro no sentido da libertação. Essa libertação te provoca o quê?

Oleg Almeida: A libertação... A libertação geral e irrestrita, digamos assim, que ainda não foi alcançada no Brasil, mas a gente está no caminho. Então, acontece o seguinte. É claro que Bakhtin escreveu sobre o carnaval medieval, sobre o carnaval europeu, e o contexto da vida europeia sempre foi diferente. Agora aqui no Brasil, o Carnaval é algo que me parece aquelas Saturnálias romanas. Com o meu interesse pela antiguidade clássica e meu conhecimento dela, eu me relembro daquela festa em que os escravos se misturavam com os donos, quando os escravos e seus senhores se sentavam à mesma mesa, tomavam o mesmo vinho e conversavam de igual para igual. Na vida cotidiana da Roma antiga, isso era absolutamente impossível, mas esses alguns dias da virada do ano, que se chamavam Saturnálias, permitiam tal possibilidade. A mesma coisa – dadas as respectivas condições históricas e sociais, é claro – acontece no Brasil. É que no Brasil você pode ser um milionário, ou então um morador de rua, mas se contagia do mesmo jeito com essa energia vital que, para mim, não é apenas uma energia festiva, não é apenas "pular o Carnaval": é libertar-se por dentro, é botar para fora esse seu lado nativo, seu lado primitivo, fugir dos preconceitos, fugir dos esquemas já prontos, ser quem você é. Isso é muito importante, porque na vida real, trabalhando num escritório de terno e gravata, você perde, muitas vezes, sua espontaneidade, você não é mais aquilo que é na realidade, por dentro, e essa energia vital, que vem de dentro... ela extravasa com muita exuberância, com muita luxúria, eu diria, nesse período carnavalesco.

JM: Foi isso que te levou a escrever Quarta-feira de Cinzas?...

OA: Exatamente... Por um lado, para mostrar a minha visão do Brasil, um país muito mais complexo e multifacetado do que apenas o do futebol e do Carnaval, e o próprio Carnaval, com uma explosão espontânea dessa energia vital, dessa vitalidade que, eu repito, você não encontra alhures, em outros países. Por outro lado, talvez, para esconjurar os meus próprios demônios, para botar para fora o que eu mesmo tenho por dentro, para ser – pelo menos, na minha poesia – quem sou na realidade.

JM: E a poesia também serve para isso, né?...

OA: É claro... É claro que a poesia é uma forma de viver que, às vezes, até ultrapassa a própria vida, ultrapassa os limites da própria vida. É um modo de viver lúdico, um modo de viver irônico, um modo de viver tido como uma brincadeira... como uma festa mesmo. Como uma festa... e as festas podem ser alegres e podem ser tristes. É que o Carnaval, como nos fala, por exemplo, Manuel Bandeira, é não só a alegria, é a tristeza também. Aliás, tanto a alegria quanto a tristeza fazem parte da vida humana...

JM: E você escolhe, como título, o último dia...

OA: É... A quarta-feira de cinzas, ou seja, a ressaca... E eu mostro os dois lados do Carnaval: a rainha da bateria, que está descansando, que está dormindo nessa manhã da quarta-feira de cinzas, e, por outro lado, um gari que está trabalhando, que precisa trabalhar... Temos que fazer alguma coisa para que a realidade se pareça mais com o Carnaval, para que a realidade seja festiva, bonita, inspiradora. E ele faz sua parte, ele varre aquela rua, já tomada de carros, já superlotada e muito animada, e pensa nisso, pensa que alguma coisa tem que ser feita. Então, eu escrevo sobre isso.

JM: E como organizar, por exemplo, para você introduzir esse capítulo onde traz os haicais? Como é que pensou essa organização, assim... Porque é incrível: de repente, você termina o Quarta-feira de Cinzas e... Outra coisa que me chamou muita atenção, é a forma como você trabalha a métrica. A gente falou sobre isso no primeiro bloco também...

OA: Isso...

JM: ... mas essa visão que você tem da divisão... Isso é pós-moderno e até foi dito aqui que é pós-moderno...

OA: É pós-moderno, sim, sem sombra de dúvidas... Eu acho que no mundo de hoje, neste mundo completamente globalizado, no mundo muito rápido, muito moderno, onde todo dia acontece alguma coisa, você não pode continuar preso aos velhos estereótipos, inclusive na poesia; ou seja, quando eu faço um haicai, eu posso errar de forma, eu não conto essas sílabas... Quando eu faço um soneto, o pessoal diz que é um soneto esdrúxulo. Por que é que é esdrúxulo? Porque não me prendo à quantidade das sílabas.

JM: Propositalmente?...

OA: Propositalmente. Eu escrevo de forma espontânea. O que me passa pela cabeça, o que me dita a minha inspiração espontânea, é aquilo ali que escrevo. E quanto aos haicais, é outro lado de minha inspiração: por um lado, poemas grandes, extensos, que escrevo devagar, desenvolvendo-os pouco a pouco; por outro lado, poemas curtos, minimalistas, feitos para capturar realmente um pensamento qualquer, uma ideia qualquer, e expressá-los dessa maneira concisa, lacônica, eu diria...

JM: Esses cem haicais...

OA: ... cem haicais...

JM: ... foram produzidos para cá, ou você tem muitos haicais e selecionou cem que você queria que compusessem a obra?

OA: Na verdade, foi um período muito proveitoso... A minha ideia era escrever especialmente esses cem haicais, para mostrar diversos lados da realidade brasileira e universal, porque não está apenas o Brasil aqui, mas o mundo inteiro como ele é, porém visto sob a ótica do Brasil. Eu aproveitei esse momento criativo e escrevi, especialmente, cem haicais que, ao mesmo tempo, não seguem nenhum esquema formal, ou seja, coloquei no papel o que me passou pela cabeça. Se isso ficou bom ou ruim, é o leitor quem sabe. Quem vai julgar a respeito disso é o leitor.

JM: A primeira publicação foi mais difícil?

OA: Muito mais difícil, porque publicar alguma coisa poética – não só no Brasil, eu quero sublinhar isso, mas em qualquer país do mundo –, publicar a poesia é muito complicado. A poesia, como todo mundo sabe, não dá retorno imediato: quem compra a poesia são algumas pessoas cultas, algumas pessoas sensíveis, românticas, mas... não é um gênero de massa. Eu entrei em contato com diversas editoras; quem ficou interessado em publicar-me foi a 7Letras, no Rio de Janeiro, e eu aproveitei aquele convite e publiquei o primeiro livro. O segundo já foi um pouco mais fácil, porque o pessoal me conhecia, sabia o que eu poderia oferecer, e o segundo livro saiu com menos peleja, digamos assim, com menos luta.

JM: E a vontade de publicar surgiu quando. Por que publicar?

OA: Para conversar com as pessoas, para conversar com os meus leitores. Por quê? Eu, por exemplo – isso gera certa perplexidade nos dias de hoje –, não tenho o Facebook, não participo praticamente dessas redes sociais. Por quê? Porque prefiro, e sempre preferi, um contato direto, um contato vivo com as pessoas; prefiro ter amigos ou, no caso, leitores em carne e osso. Por exemplo, se eu quisesse brindar à libertação geral e irrestrita do Brasil, como faria isso pela Internet? Não teria como... Ou seja, encontrar-me com os amigos num ambiente festivo, num ambiente lúdico, num barzinho, e conversar, bater um papo... a poesia faz parte disso. A poesia se revela até nas coisas mais prosaicas, até nas coisas mais cotidianas, o negócio é só perceber isso.

JM: ... é olhar, né, saber olhar...

OA: Exatamente. É saber ver essas coisas.

JM: ... saber ver.

OA: Eu penso assim. Por isso decidi publicar meus poemas: o que adianta guardá-los numa gaveta, num armário? Isso não faz sentido. A poesia, mesmo que seja lida pouco, precisa ser lida, precisa sair da clandestinidade.

JM: Sair da clandestinidade?

OA: Exatamente...

JM: Muito lindo. E a coragem de traduzir. É que o tradutor é um artista, Oleg, deve ser...

OA: As traduções... as traduções já constituem outra parte da minha inspiração. Por um lado, eu precisei tornar-me um tradutor técnico: desde que estou no Brasil, trabalho como tradutor técnico, traduzo diversos textos científicos, comerciais, faço traduções simultâneas, consecutivas nos eventos, nos congressos internacionais, e isso me proporciona meu pão de cada dia.

JM: Hum...

OA: Agora a tradução literária é uma tentativa minha de aproximar a cultura de outros países – é que traduzo do russo e do francês –... aproximar essa cultura de outros países do leitor brasileiro. Há muitas traduções, mas... a quantidade não significa a qualidade. Há muitas traduções malfeitas, muitas traduções inacabadas e que contêm diversos erros. Na medida do possível... na medida das minhas forças, eu tento preencher essa lacuna e, hoje em dia, já tenho várias traduções literárias publicadas. Isso serve, por um lado, para me manter no dia a dia, para pagar minhas contas; por outro lado, isso me proporciona muito prazer estético, porque traduzir a poesia é, mais ou menos, a mesma coisa que escrever a poesia autoral.

JM: É que existe a dificuldade da fronteira entre as línguas...

OA: Sem dúvida... sem sombra de dúvida...

JM: Deve haver um poeta dentro de você para que traduza, por exemplo, a poesia de Antonio Miranda. É um texto belíssimo, Tu país está feliz, um texto incrível, libertário, que também faz apelo à tua obra, né? Como é que foi escolher essa obra e fazer a tradução, Oleg?

OA: O professor Miranda (na época, ele era o diretor da Biblioteca Nacional, aqui em Brasília) entrou em contato comigo. Na verdade, eu não conhecia essa pessoa; foi ele quem entrou em contato comigo e perguntou se eu não gostaria de fazer algumas traduções da sua poesia para o russo. É que o russo é uma língua quase hermética, aqui no Brasil, há pouquíssimos especialistas. Encontrando-me com ele e conversando, eu descobri essa obra, que li, primeiro, em espanhol e em português, porque existem, na verdade, duas versões dessa peça teatral, Tu país está feliz, desse poemário em forma de peça teatral ou dessa peça teatral em forma de poemário, ninguém sabe. E eu decidi fazer uma versão russa, ainda por cima porque a dramaturgia brasileira, o teatro brasileiro, são absolutamente desconhecidos naquelas bandas; nem Nelson Rodrigues, que sabidamente era o maior dramaturgo do Brasil, chegou lá. No espaço russófono – quer seja a própria Rússia quer sejam outros países de expressão russa – ninguém conhece Nelson Rodrigues. Pois eu decidi, de algum modo, romper essa barreira e mostrar essa obra ao público russófono, que é muito culto, muito instruído e, até certo ponto, muito enjoado, porque tem muitas coisas boas à sua disposição, uma grande literatura mesmo. Eu decidi traduzir Tu país está feliz, e a maior parte da tiragem dessa minha versão foi exatamente para a Rússia – para as universidades, para as bibliotecas de lá, para os críticos literários – e, em geral, teve... até, eu diria, certo sucesso. É que o pessoal tem interesse em descobrir a literatura brasileira...

JM: É uma grata surpresa, né? Uma possibilidade...

OA: É. Uma possibilidade que se abriu sem eu procurar por ela, uma possibilidade que se abriu de modo espontâneo e que eu aproveitei, foi só isso. E quanto ao processo inverso (essa foi a versão minha de uma obra brasileira destinada ao público russofalante), os livros que eu traduzi para o português foram, por exemplo, Pequenas tragédias de Púchkin, que é uma obra-prima incontestável do teatro russo, dois romances de Dostoiévski, O jogador e Diário do subsolo, livros muito conhecidos dos quais eu fiz a minha própria versão, uma versão nova. E agora também é o Crime e castigo, um grande romance de Dostoiévski: há quem diga que é o maior livro de todos os tempos.

JM: Você já terminou essa tradução?

OA: Não apenas a terminei, como agora ela está tramitando... e vai sair em setembro ou em outubro.

JM: Que linda notícia!...

OA: Agora... realmente foi muita dor de cabeça, porque Dostoiévski escreve de um jeito muito complicado, e, para preservar o estilo dele, para levar ao conhecimento dos leitores lusófonos todas as peculiaridades do seu estilo, eu suei muito com essa tarefa, mas, graças a Deus, deu certo, pelo menos. Ainda não sei como vai ficar o livro, mas espero que fique ótimo.

JM: Então a gente encerra a nossa entrevista e já te faço um convite para a gente fazer o lançamento desse livro, porque é um marco histórico: a gente tem uma tradução assim tão séria e comprometida de um clássico da literatura universal... Eu te agradeço por ter vindo aqui hoje e te convido a trazer o livro para a gente.

OA: Obrigado a você...

JM: Pode ser? Vai ser nosso compromisso público...

OA: É claro... Logo que o livro sair (espero que não demore muito, que seja uma questão de algumas semanas ou, no máximo, de alguns meses... espero que ele saia ainda este ano), aí a gente entra em contato e continua a nossa conversa.

 

JM: Então, pronto. E você espere por isso e procure a poesia de Oleg. Você não se arrependerá... Até o próximo "Tirando de letra". Tchau.