Entrevista concedida a Roberto Seabra para o programa "Casa das palavras" da TV Câmara em 24 de março de 2017 e divulgada a partir de 03 de agosto de 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Roberto Seabra: Olá... Bem-vindos ao "Casa das palavras", o programa de livros na TV Câmara. Estamos hoje aqui, na livraria da Editora da UnB (Universidade de Brasília), uma das mais importantes universidades federais do Brasil... Ele nasceu na Bielorrússia e chegou ao Brasil com 34 anos de idade. E hoje escreve poesias em bom português. Ele é também tradutor: traduziu do russo para o português o Crime e castigo de Dostoiévski. Estamos falando de Oleg Almeida... E aí? Bem-vindo ao "Casa das palavras"!

Oleg Almeida: Obrigado!

RS: Vamos sentar... E aí? Vamos falar sobre a sua poesia?

OA: Vamos... certo... Aqui tenho três livros de minha autoria...

RS: Memórias dum hiperbóreo...

OA: Certo...

RS: Quarta-feira de Cinzas e outros poemas...

OA: Isso...

RS: ... e Antologia cosmopolita. Todos escritos em português?

OA: Todos escritos originalmente em português.

RS: E você é da Bielorrússia.

OA: Justamente: nasci na Bielorrússia.

RS: Mas como é que é? Que língua falam na Bielorrússia? É o russo?

OA: Na verdade, quando eu nasci, a Bielorrússia fazia parte da União Soviética, atualmente extinta, e sua língua nacional era a língua bielorrussa, que se parece mais com o polonês. É uma língua mais ocidentalizada, eu diria... E a língua russa, que era o principal idioma da União Soviética...

RS: ... era a língua oficial?

OA: Justamente: sendo a língua oficial, era usada juntamente com a bielorrussa.

RS: Mas você escrevia em russo?

OA: Durante algum tempo, ainda muito jovem... Era uma coisa meio imatura, sabe? Algo próprio da juventude. Mas não diria que fosse uma poesia séria. Comecei a escrever, de verdade mesmo, só aqui no Brasil, com quase 40 anos de idade.

RS: Pois é... Essa é uma coisa que me deixou assim, curioso, né? Como é que uma pessoa que nasce na Bielorrússia, sabe o bielorrusso e o russo, chega ao Brasil já adulta, aprende uma língua nova, né? E começa a escrever como se tivesse nascido aqui...

OA: Bom... na verdade, é uma história bastante longa. É que sou filólogo, conforme a minha formação: o curso universitário que completei em Moscou, ainda no início dos anos 90, muito tempo atrás, foi o curso de Letras. Eu estudei a língua francesa, profissionalmente: a língua e a literatura francesa... E depois, eu tentei aprender o português como amador, lendo dois livros, que eram O alienista, do...

RS: Machado de Assis...

OA: ... sim, do clássico Machado de Assis... E, quanto à língua mais coloquial, foram as crônicas de Luís Fernando Veríssimo. E depois, vindo ao Brasil, radicando-me aqui, casando-me com uma brasileira – daqui, goiana –, eu me aperfeiçoei pouco a pouco, conversando com as pessoas, lendo os jornais, assistindo à televisão... Ou seja, os métodos de aprender um idioma são múltiplos.

RS: Você tece quadros em termos universais... É uma pessoa muito culta, eu vejo isso pelos seus poemas... Contudo, há também certo prosaísmo, quando você escreve... Queria que lesse isso para a gente, para entendermos o que estou dizendo!

OA:

Vamos brincar de pique,

de esconde-esconde,

de quem perder ganha!

Vamos brincar de escola,

de faculdade, de emprego!

Vamos mandar o sério às favas,

fingir-nos de concursados, exonerados, aposentados,

de namorados, recém-casados e desquitados,

de mestres silvestres, doutores contraventores,

bandidos arrependidos e anjos marmanjos!

Vamos fazer de conta que tudo se faz brincando,

que tudo, aqui em baixo, é de mentira –

tudo, afora a morte...

RS: É como um brasileiro falando português – né? –, escrevendo em português... Você adquiriu isso morando aqui, claro...

OA: Morando aqui, sim, morando aqui... Eu quero deixar bem claro isso: não sou nenhuma espécie de turista, que veio ao Brasil atraído pelo exotismo, por essas coisas todas, ontem e que vai embora amanhã. Isso não me diz respeito, não é o meu caso... É que já faz quase doze anos que moro aqui; meu trabalho se encontra aqui, minha família também... Eu me identifico bastante com o Brasil para repetir aquela frase famosa de Albert Camus, que disse na época: "Amar ou morrer, mas juntos...". E não há outro jeito, não há outra maneira de vivenciar a realidade. Eu vim ao Brasil, em 2005, já preparado, de certa forma, para essa miscigenação que existe no Brasil, para essa diversidade cultural, para essa diversidade étnica que todo mundo conhece. Por quê? Porque a União Soviética, como eu conheci aquele país nos anos 70 e 80, na época da minha infância e da minha primeira juventude, era um país altamente cosmopolita: a União Soviética reunia, acho, uns 200 povos diferentes, de línguas diferentes, de culturas diferentes... Inclusive, foi isso que depois levou à destruição, ao colapso do sistema soviético, porque esses povos, realmente, não tinham nada a ver um com o outro. Eram línguas diferentes, culturas diferentes... modo de viver, religião, ideologia – era tudo bastante diferente. Então, acontecia a mesma miscigenação, só que sem a participação do elemento africano, como aqui no Brasil, e eu, por exemplo, eu mesmo tenho quatro sangues diferentes...

RS: ... o bielorrusso?

OA: Nem o bielorrusso, não...

RS: Não?...

OA: Nem o bielorrusso... É que, por parta da mãe, eu sou descendente dos poloneses e dos ucranianos, que também são dois povos bastante diferentes...

RS: E por parte do pai?

OA: E, por parte do pai, sou descendente de um povo muito pequeno, caucasiano, que se chama "circassianos". É um povo realmente muito pequeno, como se fosse, pensando em termos brasileiros... como se fosse uma tribo indígena, que tinha também – até agora tem – sua própria cultura, bem diferente da cultura russa ou bielorrussa. Agora eu nasci na Bielorrússia e cresci dentro daquele espaço mais ocidentalizado, porque a Bielorrússia fica...

RS: ... perto da Europa...

OA: ... entre a Rússia e a Polônia, praticamente já no território da Europa.

RS: Oleg... além de escritor e poeta, você também é tradutor.

OA: Sim, sou também tradutor.

RS: E eu vi que tinha feito a tradução do Crime e castigo de Dostoiévski...

OA: Justamente...

RS: ... direto do russo, né?

OA: Sim, e de outros livros dele também...

RS: Pergunto exatamente sobre isso. É que li a versão do Crime e castigo traduzido do francês. Para um leitor como eu, qual a diferença entre ler um livro clássico traduzido da língua materna – né? –, da língua-mãe, ou de outra língua?

OA: O mercado livreiro do Brasil até agora continua dominado por aquelas traduções indiretas dos clássicos russos, que se baseiam em antigas versões francesas, inglesas, às vezes, até alemãs... E acontece o seguinte: Dostoiévski, no caso específico dele, é um dos escritores mais complexos, um dos escritores mais intrincados, eu diria, do mundo – pelo menos, daqueles escritores que eu conheço. E esse escritor, Dostoiévski, ele não escreve de modo linear. É uma narrativa...

RS: Não é uma narrativa linear?

OA: Não. É uma narrativa que faz saltos bruscos, imprevistos, que passa de um tema para outro, que deixa o leitor perplexo...

RS: E você acha que na segunda tradução isso foge, escapa...

OA: Muitas coisas... infelizmente, muitas coisas escapam. É que tenho essa experiência: eu trabalhei com a revisão técnica das traduções indiretas, feitas a partir da versão francesa... ou seja, era a tradução da outra tradução. E cheguei à conclusão de que, realmente, muitas nuanças, muitos matizes sutis, mas que enriquecem a narrativa, que levam o leitor a refletir, a apaixonar-se por esse livro, a questionar-se sobre aquelas grandes coisas, sobre as questões universais da humanidade... muitas dessas coisas simplesmente escapam, porque o tradutor reproduz todos os erros da versão francesa, todas as falhas estilísticas, aquelas falhas que dizem respeito ao contexto, a... Só um exemplo, só um exemplo breve... Quando eu leio Os irmãos...

RS: Karamázov...

OA: Isso... naquela tradução indireta, feita a partir do...

RS: ... do francês ou do inglês?

OA: ... do francês... eu tropeço simplesmente num detalhe que não existe no original russo, e nem pode existir. É que lá o pessoal serve, sem mais nem menos, o purê de batata como sobremesa... Aí pego o original russo, começo a procurar, procurar...

RS: Deve ser um doce de batata, imagino...

OA: Não...

RS: Não (risos)?

OA: Não, a batata não tinha nada a ver com aquele contexto específico. E eu acho que, na verdade, é um pudim, é uma espécie de pudim doce, bastante parecido com o pudim que todo mundo conhece aqui no Brasil, mas que não leva batata, que não tem nada a ver com a batata... De onde, eu questiono, de onde o tradutor tirou o purê de batata, esse prato que é servido como sobremesa?

RS: Você me convenceu, então... Vou reler, então, Dostoiévski traduzido do russo...

OA: Para sentir... diria assim: para sentir o sabor, o cheiro nacional... para perceber aquela tensão que gera o original dostoievskiano, com todos os detalhes, com todas as nuanças – às vezes, imperceptíveis... mas depois você lê e se dá conta de ter lido alguma coisa extraordinária, alguma coisa muito fora daquela realidade que nós vivenciamos dia após dia... Então, nesse sentido, com essa finalidade, seria bom reler a tradução direta. Isso diz respeito não apenas a Dostoiévski, como também a qualquer escritor russo, ou de outra nacionalidade...

 

RS: ... que tem de ter uma tradução direta...

OA: ... que teve a infelicidade, eu diria, de ser traduzido através de alguém, através de alguma versão prévia...

RS: Oleg Almeida, autor de Quarta-feira de CinzasAntologia cosmopolita e Memórias dum hiperbóreo... O hiperbóreo, é aquele povo que mora lá no Norte?

OA: Geralmente, eu me refiro àquele povo que habita no hemisfério norte, muito longe daqui, que tem a cultura e o contexto bem diferentes dos brasileiros.

RS: Oleg, muito obrigado por ter vindo ao "Casa das palavras", e até a próxima!

OA: Foi um prazer!