Oleg Almeida. Quarta-feira de Cinzas e outros poemas. 7 Letras: Rio de Janeiro, 2011

A poesia pós-moderna de Oleg Almeida (prefácio do livro)

 

Oleg Almeida escreve uma poesia que se constrói como uma vitoriosa experiência artística entre as melhores propostas poéticas brasileiras do século XXI. O seu livro Quarta-feira de Cinzas e outros poemas apresenta, do ponto de vista da linguagem, a intenção de produzir um discursivismo enxuto, sem metaforização hiperpoética que se transformou em uma das infelizes marcas registradas dos representantes da chamada geração de 45. E também sem as paupérrimas reinvenções letristas da vanguarda concretista. Oleg sabe ainda livrar-se do difundido arremedo da dicção reiterativa da vertente metapoética de João Cabral. Também, não encontramos na poesia de Oleg Almeida nada que a aproxime do pieguismo pseudoerótico dos neorromânticos, poetas encharcados de sentimento, mas jejunos de arte e de técnica. Sem nada desse passado, ele soube, no entanto, retirar um pouco de cada uma destas expressões e vivências, criando a sua dicção própria, que depois reuniu em poemas, pólens, partículas criativas que inspiraram e montaram as suas obras originais.

Atento à soma do válido e do vivo e do abandono daquilo que ficou perempto na nossa literatura poética, Oleg Almeida viaja entre a tradição e o novo com a total capacidade aglutinadora, uma das características destes tempos pós-modernos. Erudito sem pedantismo, olhar atento ao cotidiano, meteorologista lírico de noites e dias, invernos e verões, raios de sol e luas: "Quem me dera ver / quatro sóis, ali no céu, / ao amanhecer!" Cultor de abstrusas palavras, escritas com a naturalidade da linguagem corrente, o poeta faz das contradições entre a Vida e o Ser uma síntese equilibrada e harmoniosa que é o cerne de seus poemas.

"Caliente" de erotismo e carnavalização, frio de solidões, Oleg em sua metáfora de fogo é também o seu palíndromo – gelo – o seu alter-ego, o eu lírico. Daí a pergunta que confronta presente e passado numa dialética cuja síntese é a própria poesia verbalizada do famoso ubi sunt? "Onde estarão / meu pequeno inverno, meu grande verão, / meu passado feliz? – / Não sei..." Estes versos repercutem uma memória saudosa do paraíso. Quem não viveu um passado feliz (imaginário ou não), atire a primeira pedra no poeta romântico.

Quarta-feira de Cinzas é um longo poema dividido em 13 atos que começa com a rainha (do carnaval?) dormindo até acabar a quarta-feira de cinzas. Num flashback, "a gente dançava infrene". O poema retrata um desfile onírico de imagens coloridas, de pesadelos, frustrações e esperanças. O interregno do carnaval – da vida – ontem e hoje:

 

Isso foi ontem...

E hoje o que nos resta da saturnália?

 

O poema Quarta-feira de Cinzas, que dá título ao livro, representa, talvez, o despertar de um sonho. O carnaval, a infrene vida que somente pode ser capturada na memória, e o som, e a fúria que se afundam depois na rotina do ano burocrático. O poema é a salvação do poeta para guardar os "resíduos da festa". Tudo é metáfora, imaginação e recordação. Qualquer análise seria insuficiente para entender o que o poeta viveu em emoção, como quando cantou o seu único, pessoal e intransferível carnaval, que é, depois de escrito, apenas poema.

Os cem Haicais urbanos são os mais perfeitos poemas minimalistas da nossa literatura. Estamos acostumados a ler banalidades em duas ou três linhas, pretensiosas meias-frases que se apresentam com ares de profundidade filosófica, de conceitos (numa época de empulhação travestida em arte conceitual). Pois bem, os haicais de Oleg Almeida são leves, líricos, mas pesam como chumbo na alma da gente.

 

Desta multidão

não me sinto parte, mas

ela me conduz.

 

Ou:

 

Não finge nunca

ser feliz ou infeliz

o sol da tarde.

 

No também longo poema Balada dum amor distante, o poeta narra a estória de um amor, pontuando detalhes corriqueiros ou intensamente poéticos, projetando um filme, um poema com começo e fim, incluindo alumbramento e realidade. Abstrusas palavras convivem com a linguagem coloquial, e este é o truque certo para o poema não se tornar simplório. Uma leitura fluente, um ritmo de conversa, uma lembrança lentamente relatada. Tudo resulta num poema redondo, sem arestas, pronto para ser dito em voz alta, aproveitando as nuanças da entonação variada, as tensões de um dramatizado monólogo.

A poesia de Oleg Almeida mantém sempre o compromisso entre o coloquial-cotidiano e as brilhantes pepitas de um vocabulário erudito, sabiamente disseminado em versos que falam da vida utilizando as expressões do dia a dia e o registro poético culto, versos para especialistas e leigos:

 

Quem for Aristipo,

Platão, Xenofonte,

não vai acusar-me de grafomania.

E quanto aos leigos,

espero que sua

cicuta não passe dum tropo barroco! 

 

Cláudio Murilo Leal 

Rio de Janeiro, outubro de 2010

Resenhas: 

1. Meditação em Brasília por Izacyl Guimarães Ferreira (publicado no portal Meiotom (www.meiotom.art.br) em 23 de junho de 2011; reproduzido na Revista Grafite: arte e cultura (www.revistagrafite.com.br) - Edição 1 / julho de 2011). 

2. A poesia de Oleg Almeida (Loucura em sol menor) por Cida Sepulveda (publicado no Jornal Coruja: Arte & Pensar (www.jornalcoruja.com) em 05 de fevereiro de 2012; reproduzido no site da Editora 7Letras: www.7letras.com.br). 

3. Quarta-feira de Cinzas de Oleg Almeida por Carlos Pessoa Rosa (publicado no portal PNETliteratura: Portal e Comunidade de Literatura dos países de língua portuguesa (www.pnetliteratura.pt) em 25 de fevereiro de 2013; reproduzido na Germina: revista de literatura e arte, ano X - edição 43 / abril de 2013).