DUM SPIRO, SPERO

 

Eu sei, meus amigos, que tudo acaba,

que não existe, no mundo dos homens, nada perene:

gasta-se a saúde,

perde-se a beleza,

esgota-se o prazer

e a força do corpo se vai embora.

Eu sei que a nossa vida não passa

duma centelha a brilhar no escuro sem bordas,

que só um instante separa a infância da senectude,

o berço da cova,

e disso, por vezes, eu tenho medo.

Mas, quando me sinto fraco,

e voltam as dúvidas seculares a deprimir-me,

quando, perante o infinito, deixam de ser relevantes

todos os argumentos lógicos e absurdos,

resta a promessa divina

que os humanos costumam chamar de esperança

em mil idiomas –

vem com o sol nascente,

surge das nuvens que se dispersam após a chuva,

no canto dos pássaros se percebe,

recria os sonhos desfigurados pela tristeza,

de brotos verdes semeia o solo infértil...

Forte como as mãos paternais

e serena como uma prece,

a esperança compensa a urgência dos dias

com tanta certeza de não me levarem à morte, mas, sim, ao futuro

que partilhá-la convosco, amigos, quero:

posto que grande demais para mim, em pessoa, seja,

para a humanidade seria de bom tamanho!