DILEMAS DA TRADUÇÃO LITERÁRIA

 

"Só se pode chamar de tradução uma transposição do original para outra língua que suscite ao leitor as mesmas emoções (...) que o próprio original" – essa ideia do grande arabista russo Teodor Chumóvski(1), com a qual se solidarizam, aliás, Georges Mounin(2) e numerosos adeptos de sua consagrada escola, vem-me à mente cada vez que me vejo incumbido de uma nova tradução literária. Em primeiro lugar, ela se refere ao eterno binômio forma versus conteúdo, fadando o tradutor, por mais talentoso e experiente que seja, a hesitar entre dois tipos de adequação – a textual e, diria eu, a emocional – de seu trabalho interlinguístico. "O que teria mais relevância: o enunciado ou a alusão, o acontecimento descrito com todas as letras ou o sentimento, não raro subentendido, que lhe deu início" – pergunta-se, um dia, qualquer tradutor sério. – "E, assim sendo, o que seria a tradução em si: um processo meramente técnico que tem por objetivo a reprodução de certo texto num idioma diferente daquele em que foi redigido ou uma verdadeira arte que visa à aproximação das culturas e, por meio desta, à socialização das pessoas e, quem sabe, nações inteiras?" Ciente, desde os anos estudantis, desse dilema, eu não me importava com ele. Dois episódios vivenciados mudaram, de modo radical, a minha opinião.

Quando a editora paulistana Martin Claret me encomendou a tradução das celebérrimas Pequenas tragédias, de Alexandr Púchkin, fiquei um tanto angustiado. Não estaria a obra-prima do teatro russo, escrita, para cúmulo da dificuldade, em versos, acima do meu nível profissional? E como a faria provocar, no coração brasileiro, o impacto estético que ela causa, há quase duzentos anos, ao coração eslavo. Se tencionasse traduzi-la em prosa, minha tarefa seria muito mais fácil, porém o texto puchkiniano perderia, aos olhos do leitor lusófono, todo o seu encanto; a pérola de inspiração poética se transformaria numa tosca bugiganga artesanal, denegrindo, inclusive, a imagem de seu autor. Descartei a possibilidade da tradução prosaica numa ambiciosa tentativa de adaptar as Pequenas tragédias aos cânones da prosódia portuguesa, mas aí surgiu na minha frente um problema inesperado. Composto o original russo de versos hendecassílabos e decassílabos brancos com finais alternadamente paroxítonos e oxítonos, seria lógico usar igual esquema métrico na versão portuguesa. Nem pensei, a princípio, que o decassílabo de Púchkin jamais equivaleria ao de Fagundes Varela, sendo os fenômenos da sinalefa, comuns na versificação românica, alheios ao verso russo. O resultado que consegui, após várias semanas de incansável contagem de sílabas, foi negativo. O estilo puchkiniano, solene e coloquial, arcaico e moderno, dramático e irônico, tornou-se completamente artificial, a ponto de eu me sentir um padre jesuíta do século XVI que lançara mão da macarrônica "língua geral" para ensinar a doutrina cristã aos nativos da Terra Brasilis. "E se deixasse as regras de lado, ou melhor, se fizesse de conta que elas não dizem respeito a este caso específico?" – tomei, então, uma resolução ousada. – "Se construísse as frases portuguesas espontaneamente, pelo ouvido, provendo-as de um charmoso e indisfarçável acento russo?" Fiz isso, e minha empreitada acabou frutuosa: o sinistro solilóquio de Salieri decidido a envenenar seu rival Mozart, da peça Mozart e Salieri, e o ardente monólogo de Dom Juan a confessar sua impura paixão à virtuosa Dona Ana, da Convidado de pedra, passaram a soar com total naturalidade na língua camoniana, como se nela tivessem sido escritos. "Estás contente, pois, escrupuloso artista?"(3) – indagar-me-ia Púchkin em pessoa. "Estou, sim" – responderia eu. – "O esforço foi grande, mas certamente valeu a pena!" Mesmo se algum purista me imputasse a consciente subversão da ordem gramatical, quem lesse essas páginas comoventes não apenas conheceria as peripécias arrebatadoras das Pequenas tragédias como também chegaria a descobrir o aspecto sonoro delas, fascinante em sua multicolor expressividade.

Tornei a enfrentar o dilema de forma e conteúdo, quando me encarreguei de traduzir Os cantos de Bilítis, de Pierre Louÿs, mais tarde lançados pela Ibis Libris. Não pretendia dedicar a esse "romance lírico" mais de um mês, tão simples ele me parecera à primeira vista. Transcorreram, de fato, seis meses, sem que nenhum trecho da tradução feita e refeita me agradasse, e uma espécie de desespero criativo levou-me a reconsiderar toda a metodologia pela qual tinha amiúde optado antes e que sempre se revelara aceitável. Meu texto se espelhava, até os menores detalhes, no original francês, mas não lhe correspondia no plano sentimental: leves, sucintos e consoantes à tradição literária da Grécia clássica, que o autor erudito empregara como modelo, os poemetos falsamente ingênuos de Pierre Louÿs redundavam, se transpostos para o português, numa trivial novela erótica com que um leitor culto se enfadaria de imediato. Por conseguinte, o desafio se resumia em poetizar o texto produzido, contanto que ele mantivesse sua literal fidelidade ao original – um paradoxo que logo me fez lembrar o coitado asno de Buridan. Comecei a estudar, com o entusiasmo de um calouro da faculdade de Letras, a herança crítica referente a Os cantos de Bilítis, e esta me sugeriu uma conclusão norteadora. Se não era possível interferir na parte narrativa da obra, cuja integridade eu deveria preservar a todo custo, nada impedia que me valesse de umas artimanhas inócuas a fim de realçar, em momentos oportunos, a beleza de seu estilo. Não excluiria nem acrescentaria meia palavra, mas alteraria o ritmo e a tonalidade do escrito, agindo como aquele músico audacioso que arranja uma sinfonia para a banda de jazz. O ponto de partida que escolhi no intuito de aprimorar a versão portuguesa de Os cantos foi a prosa cadenciada de Longo, escritor grego do século III d.C., cujo livro Dáfnis e Cloé, bem popular na época do Arcadismo, impulsionara o desenvolvimento do gênero bucólico em toda a Europa. Não seria justo que, advindo ele próprio de uma brilhante imitação da poesia helênica, o texto de Pierre Louÿs adquirisse um pouco de sua plácida e melodiosa fluidez?

Terminando esta breve reflexão sobre os dilemas que o tradutor encontra em sua prática cotidiana, eu gostaria de explicitar o meu credo profissional. Concordo com Paulo Rónai(4), cujos passos me proponho seguir no Brasil: a tradução perfeita é uma quimera. Se pudéssemos, ainda, traduzir um romance em plena conformidade com o desígnio autoral, nem que nos cumprisse, para realizar tal façanha, guarnecê-lo de inúmeros comentários históricos e linguísticos, essa tática teria imensas chances de falhar caso aplicada a um poema. Há quem procure, ao deparar-se com este impasse, pelo rigor filológico, tremendo sobre cada linha do escritor traduzido; há quem prescinda, pelo contrário, deste e dá largas à mais intrépida fantasia. Não tiro a razão de ambos, embora o fato seja cediço: uma tradução realmente boa, por dentro e por fora (aqui me recordo, em particular, das magistrais Flores das Flores do Mal, de Guilherme de Almeida), apresenta-se tão excepcional como qualquer coisa benfeita. Quanto a mim, tenho tomado, em semelhantes circunstâncias, um terceiro caminho, o da precisão que não seja servil e da criatividade que não conduza à anarquia. Se, por algum motivo, a exatidão absoluta se anuncia inalcançável, nada me resta senão recorrer aos inúmeros estratagemas de meu conhecimento em busca daquela exatidão emocional de que falei no começo do artigo. Uma obra literária de qualidade, seja ela criada em primeira mão ou traduzida, não se limita a entreter os leitores e transmitir-lhes uma porção de informações úteis, mas tem como propósito tocar nas cordas mais íntimas de seu espírito para deixá-los alegres ou tristes, pasmados ou arrepiados – numa palavra, cheios de emoções – e, máxime, incentivá-los a refletir sobre o lido. Ora, a meta principal do tradutor consiste em localizar essas cordas e fazê-las vibrar, convertendo-se para tanto no coautor dos maiores mestres da literatura universal e partilhando com eles, primeiro, um árduo labor intelectual, e depois um grão de efêmera satisfação ante o efeito obtido. Afoita engenhosidade em interpretar as obras de outrem e sóbria humildade na hora de submetê-las ao julgamento público, essas são as virtudes intrínsecas a quem abraçar o ofício de tradutor.

 

(1) Teodor Adâmovitch Chumóvski (1913-2012): egrégio cientista russo, autor da tradução poética do Alcorão.

(2) Georges Mounin (1910-1993): linguista francês, autor dos livros As belas infiéis: ensaio sobre a tradução e Os problemas teóricos da tradução.

(3) Verso do soneto A um poeta, de Púchkin.

(4) Paulo Rónai (1907-1992): ensaísta, crítico literário e tradutor húngaro, naturalizado brasileiro; autor dos livros Escola de tradutores e A tradução vivida.