Entrevista concedida a Ademir Pascale e publicada no Portal Cranik em 14 de junho de 2012

Ademir Pascale: Como foi o início de Oleg Almeida para o meio literário?

Oleg Almeida: Comecei a escrever cedo, aos nove ou dez anos de idade. A princípio, eram aquelas histórias mirabolantes que toda criança aprecia: voos cósmicos, seres extraterrestres, monstros, heróis invencíveis e bichos com traços humanos... Gostava muito, na época, de ficção científica; os romances de Jules Verne, Herbert Wells e Alexandr Beliáiev eram meus livros de cabeceira. O interesse pela poesia veio mais tarde, já no final do ensino médio, com os primeiros namoros e sonhos de adolescente. Nos anos 1980 e 90, escrevi mais de cem poemas em russo, minha língua materna, mas, infelizmente, cheguei a publicar apenas 10% desse total. Por um lado, a fase das profundas e dolorosas transformações que se seguiu ao colapso da União Soviética, não era nada propícia para a poesia; por outro lado, apesar de formado em Letras, eu trabalhava nas empresas privadas e literalmente não tinha, em função disso, tempo para me dedicar a quaisquer atividades artísticas. Digamos que escrevo para valer desde 2007, quando, radicado no Brasil, adotei o português como o único meio de expressão literária.

 

Ademir Pascale: Além de escritor, você também é tradutor: traduziu do francês O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa de Charles Baudelaire (Martin Claret, 2010) e Os cantos de Bilítis de Pierre Louÿs (Ibis Libris, 2011); traduziu do russo Canções alexandrinas de Mikhail Kuzmin (Arte Brasil, 2011); verteu para o russo a peça teatral Tu país está feliz (Thesaurus, 2011) e uma série de poemas avulsos de Antonio Miranda; e isso dedicando-se igualmente às traduções científicas, técnicas e comerciais. Por favor, fale mais sobre as suas traduções.

Oleg Almeida: Não acho que a tradução seja só um processo mecânico, destinado a levar um texto escrito em dado idioma ao conhecimento de quem usa outro idioma. Não... Para mim, a tradução é uma verdadeira arte, cuja meta consiste em aproximar as comunidades e as culturas mundiais uma da outra, em apagar as fronteiras reais e imaginárias, em promover as riquezas espirituais em prol de toda a humanidade que não se divida, por motivos históricos ou imposição de alguém, em etnias, povos e raças. Jamais apartei a poesia propriamente dita da tradução de obras poéticas. Em resumo, traduzo por vocação e prazer, ainda mais que, a par daqueles valores sublimes e imateriais (risos), a tradução me fornece meios de subsistência. São os textos por mim traduzidos – não digo os literários, mas, principalmente, os técnicos e comerciais – que me permitem manter minhas contas em dia.

 

Ademir Pascale: Tendo nascido na Bielorrússia, uma das repúblicas ocidentais da União Soviética, e vindo ao Brasil com 34 anos de idade, você sentiu muita diferença e dificuldades em nossa cultura, ou a adaptação foi fácil?

Oleg Almeida: Sabe, Ademir, o choque cultural que vivenciei nos primeiros meses, e até mesmo anos, de minha vida no Brasil foi enorme! Sendo o Brasil tão dessemelhante daqueles países europeus que conhecia, não poupei esforços para me adaptar ao seu modo de pensar e de viver em geral. Atualmente me identifico muito com este modus vivendi tropical, a ponto de ostentar o passaporte brasileiro. Gosto da afetividade informal e despretensiosa deste povo, contanto que ela não dê margem à insolência.

 

Ademir Pascale: Colaborador das revistas "EisFluências" (Recife/Lisboa) e "(n.t.) – Revista Literária em Tradução" (Florianópolis), administrador do projeto "Stéphanos: Enciclopédia virtual da poesia lusófona contemporânea", mantido no seu site, agente cultural em Brasília, consultor e parecerista, além de trabalhar com leitura crítica e revisão de textos literários e elaboração de textos técnicos e publicitários. Como você faz para administrar o seu trabalho?

Oleg Almeida: Acho que é, antes de tudo, uma questão ergonômica. Pela manhã, ainda cheio de gás (risos), costumo abordar as tarefas mais urgentes e volumosas, como, por exemplo, as traduções técnicas; à tarde, ocupo-me de projetos "long-play", traduzindo algum poema, fazendo a revisão de um texto, que não precise entregar logo em seguida, ou atualizando, se for o caso, meu site. Sempre procuro "juntar o útil ao agradável", organizando os horários da melhor maneira possível. Ainda assim, reclamo de vez em quando de que só caibam num dia 24 horas! Se não me engano, foi Einstein quem questionou, entre outras coisas, como se poderia fazer o máximo de trabalho no mínimo de tempo e evitar, desse jeito, qualquer gasto improdutivo. Pois é... a sabedoria dele é que nos faz falta (risos)!

 

Ademir Pascale: Quando o site www.olegalmeida.com foi ao ar?

Oleg Almeida: O site, em que tenho disponibilizado algumas amostras de meu trabalho literário, está no ar desde agosto de 2009. É pena ele ter menos visitantes do que eu queria que tivesse, mas... poucas são as pessoas que valorizam, nos dias de hoje, a literatura. Até concordo com a maioria dos internautas: os sites recreativos parecem mais empolgantes. Só que a diversão enjoa, e a literatura de qualidade... Bom, cada qual com sua opinião pessoal – olha aí, um versinho... (risos).

 

Ademir Pascale: Em 2008 você lançou a obra Memórias dum Hiperbóreo (Editora 7 Letras) e em 2011, Quarta-feira de Cinzas, também pela editora 7 Letras. Por favor, fale mais sobre estas obras.

Oleg Almeida: Esses dois livros são bem diferentes entre si. Memórias dum Hiperbóreo é uma espécie de autobiografia lírica, em que descrevo a queda da União Soviética e a minha mudança para o Brasil com todas aquelas dificuldades que a acompanharam, em forma de uma extensa alegoria neobarroca. Quarta-feira de Cinzas e outros poemas é, por sua vez, uma obra muito mais realista e, diria eu, muito mais brasileira em sua essência: nela se manifesta a minha visão do Brasil contemporâneo com suas altas e baixas. Alguns excertos de ambos os livros podem ser lidos no meu site, porém fique claro que eles apresentam somente uma parte ínfima dessas obras, o ápice do iceberg.

 

Ademir Pascale: Como os interessados deverão proceder para adquirir as suas obras?

Oleg Almeida: Basta entrarem em contato comigo por e-mail disponível no meu site. Faria, inclusive, um bom desconto a quem se interessasse pelos meus livros e quisesse adquiri-los. A meu ver, esse tipo de intercâmbio é indispensável para todos os escritores, sejam eles já consagrados ou não.

 

Ademir Pascale: Existem novos projetos literários em pauta?

Oleg Almeida: Ultimamente, tenho traduzido para o português três romances de Fiódor Dostoiévski, um dos maiores representantes da literatura clássica russa. Espero que não demorem em vir a lume. Penso também em escrever uma "menipeia", quer dizer, uma obra multifacetada que misture trágico e cômico, intelectual e emocional, poético e prosaico com plena liberdade e desenvoltura. Aliás, este projeto meu ainda está bem no começo...

 

Perguntas Rápidas:

Um livro: Pequenas tragédias de Alexandr Púchkin que, diga-se de passagem, acabo de traduzir do russo.

Um(a) autor(a): Charles Baudelaire, poeta genial e maldito, pai de toda a poesia moderna.

Um músico: Bach: como se diz lá na Rússia, "cada seu palmo é rei"!

Um ator ou atriz: Klaus e Nastassja Kinski, um belo exemplo de sucessão e conflito de gerações.

Um filme: The Thomas Crown affair em sua versão antiga, com Steve McQueen e Faye Dunaway.

Um quadro: Un bar aux Folies Bergère de Édouard Manet: não lembro mais quem chamou essa pintura de "Madona do século XIX".

Um dia especial: 7 de maio de 1988 (publicação de meu primeiro poema) e 21 de julho de 2005 (meu desembarque no Brasil).


Ademir Pascale: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Oleg Almeida: Na verdade, só me resta agradecer-lhe, Ademir, seu sincero empenho em divulgar a literatura brasileira. Essa tentativa de suprir as lacunas deixadas pelas mídias oficiais merece admiração e respeito!