Entrevista concedida a William Alves e outros internautas e divulgada na rede social Facebook a partir de 07 de fevereiro de 2015

Internautas: Em 2002 aconteceu uma revolução no mercado de literatura russa no Brasil: tratava-se do lançamento da primeira tradução do romance Crime e Castigo, feita diretamente do russo por Paulo Bezerra, pela Editora 34. Uma década depois, a Martin Claret lança uma tradução direta do mesmo título. Qual o intuito de a MC colocar no mercado uma nova tradução de um romance que já possui uma outra que é referência? Qual o público alvo desta edição? Como tem sido a recepção desta tradução pelos leitores de Dostoiévski?

Oleg Almeida: Não creio que alguma tradução literária, sejam quais forem suas qualidades estéticas, mereça ser tida como referencial. A meu ver, cada obra de ficção traduzida, sobretudo se for uma obra-prima semelhante a Crime e castigo, é tão somente uma tentativa mais ou menos séria de transpor os limites naturais de um espaço linguístico para tomar conta do outro. Às vezes tal investida tem um desfecho vitorioso, às vezes não: por mais competente que seja o tradutor, sempre encontra barreiras psicológicas e socioculturais que não consegue superar. A própria teoria da tradução literária reconhece, aliás, a impossibilidade da correspondência absoluta entre o texto original e a sua reprodução em qualquer idioma estrangeiro. Não pretendo rivalizar com Paulo Bezerra nem com outros colegas meus, visto que estamos a igual distância dos originais dostoievskianos. Crime e castigo pode ter dezenas de versões portuguesas, sem que nenhuma dessas versões diminua o valor de todas as demais. Em última análise, quem vai exaltar a versão X ou depreciar a versão Y são os leitores cultos e exigentes.

Int.: Quais as principais dificuldades de tradução de Dostoiévski? Seriam expressões idiomáticas, jogos de palavras, etc.

OA: O maior dos problemas com que se deparam os tradutores de Dostoiévski é seu estilo ou, para ser mais exato, seu modo de escrever. Além de a gramática e a prosódia da língua russa serem bem diferentes das portuguesas, o texto dostoievskiano é muito complexo em si: não basta dominar o russo formal para traduzi-lo adequadamente, faz-se indispensável o total domínio daquela linguagem específica que é, em certo sentido, a marca registrada de Dostoiévski. Sabe-se que ele costumava escrever às pressas, chegando, inclusive, a lançar mão da taquigrafia, e não se importava tanto com a perfeição externa de suas obras. Constantes repetições, redundâncias, frases truncadas ou longas em demasia, erros lógicos, contradições, estranhos neologismos, termos arcaicos e regionais que o autor emprega com plena desenvoltura – tudo isso torna dificílima a inserção desses escritos nos moldes do português hodierno. Traduzir Dostoiévski significa seguir, página por página e mesmo palavra por palavra, os mais intrincados meandros de sua psique extraordinária. Diria que é um vigoroso exercício, uma verdadeira malhação espiritual.

Int.: Quais os seus futuros projetos de tradução?

OA: Estou traduzindo uma volumosa coletânea de contos clássicos russos, cuja cronologia se estende de Karamzin a Górki. Seu primeiro tomo foi lançado pela Martin Claret em novembro de 2014.

Int.: A Editora Martin Claret tem no seu histórico diversas denúncias por plágio, embora nos últimos anos ela venha fazendo paulatinas correções em seu catálogo. Você tinha ciência dessas acusações quando começou a trabalhar com eles? Você sente que de alguma maneira esse histórico gerou algum preconceito ou afetou a credibilidade e a recepção da sua tradução?

OA: Estava ciente, sim, de todas as acusações dirigidas contra a Martin Claret, mas decidi relevá-las. Por um lado, a Martin Claret tem sido a única editora brasileira a publicar minhas traduções de grande porte. Por outro lado, não me cabe julgar a outrem: "não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados". Não sei ao certo o que ocorreu no passado, mas hoje em dia não há dúvidas de que a editora mudou radicalmente seus rumos, ficou mais dinâmica e moderna, pôs no mercado uma porção de títulos novos e interessantes. Quanto ao preconceito, bom... recebi umas mensagens cáusticas, vi uns comentários maldosos na Internet, só isso. Desde que me estabeleci no Brasil, tenho enfrentado coisas piores.

Int.: Nos seus prefácios de Crime e Castigo e Diário do Subsolo você tece críticas a Nietzsche. Você já teve contato com suas obras? Detalhe o que você pensa sobre ele e sua filosofia.

OA: Quem sou eu para criticar ou, pelo contrário, elogiar Nietzsche? Li alguns dos seus livros (Assim falou ZaratustraAlém do Bem e do Mal, entre outros) e não posso dizer que suas ideias me tenham entusiasmado. O que acho da sua filosofia é que teve uma interpretação superficial, se não errônea, no século XX. As mais diversas ideologias voluntaristas ignoraram o riquíssimo teor metafórico do pensamento nietzschiano e, ao mesmo tempo, apossaram-se do seu conteúdo aparente, de fato polêmico. Como se sabe, as aparências iludem.

Int.: Gosta da literatura brasileira? Quais os seus autores preferidos?

OA: Não sou apenas um tradutor de obras literárias: a União Brasileira de Escritores (UBE/São Paulo) introduziu-me no seu quadro social como poeta. Se não gostasse da literatura brasileira, decerto não faria poemas em português nem insistiria em publicá-los no Brasil. A poesia brasileira, seja barroca (Gregório de Mattos) ou parnasiana (Olavo Bilac), bucólica (Tomás Antônio Gonzaga) ou mística (Alphonsus de Guimaraens), romântica (Álvares de Azevedo) ou modernista (Ronald de Carvalho), é uma das minhas leituras prediletas e, a par da lírica russa, francesa e portuguesa, uma das principais fontes de inspiração.

Int.: Você também traduziu O esplim de Paris, de Baudelaire. Comente sobre seu trabalho como tradutor do francês.

OA: Tanto a minha formação acadêmica quanto boa parte das preferências pessoais são estreitamente ligadas à língua francesa e às letras francófonas em geral. Se não dependesse do mercado editorial e pudesse escolher textos a traduzir, seguramente traduziria alguns dos romances de Balzac, Flaubert e Victor Hugo ou contos de Mérimée e Maupassant que leio e releio por décadas. Até agora só duas obras que traduzi do francês vieram a lume: O esplim de Paris de Charles Baudelaire e Os cantos de Bilítis de Pierre Louÿs.

Int.: Qual a diferença do russo falado na Rússia para o da Bielorrússia? Isso influenciou de alguma forma no seu trabalho de tradução?

OA: O russo falado na Bielorrússia é o mesmíssimo russo falado na Rússia. Ainda que existam vocábulos e sotaques locais, eles não dificultam nem um pouco a compreensão mútua e a comunicação ativa entre os russos e os bielorrussos, historicamente chamados de "irmãos eslavos" (diga-se de passagem, o substantivo "bielorrusso", utilizado também como adjetivo, nada mais é que a forma sincopada da locução "russo branco"). Enfim, quero deixar bem claro que nenhuma interferência étnica ou geográfica atrapalha nem sequer poderia atrapalhar o meu trabalho de tradutor.

Int.: Você tem planos de traduzir algum escritor bielorrusso para o português?

OA: Gostaria muito de apresentar ao público lusófono uma das trágicas novelas de Vassil Býkov sobre a Segunda Guerra Mundial ou então o romance Os punidores de Alês Adamóvitch que contém, por sinal, uma visão singular e surpreendente das doutrinas filosóficas de Nietzsche. Haja editoras interessadas nestas traduções minhas!

Int.: Você possui interesse em traduzir contemporâneos russos? Você gosta da literatura russa contemporânea?

OA: A literatura russa contemporânea é obviamente inferior à literatura russa clássica, tanto assim que fica eclipsada, na própria Rússia, pelos best-sellers estadunidenses. Não obstante, possui bons autores e obras de primeira linha. Talvez venha a traduzir uma dessas obras, O lenço de Oremburgo de Anatóli Sanjaróvski: iniciadas no ano passado, as respectivas negociações avançam mais devagar do que eu queria.

Int.: Espaço livre, diga o que quiser.

OA: Nossa conversa foi muito agradável. Oxalá me ajude a consolidar minha carreira cosmopolita! Acontece que os leitores se mostram amiúde ingratos em relação aos tradutores: todo mundo conhece o escritor, mas ninguém dá atenção a quem o traduz. Nesse ponto, a entrevista que construímos juntos é uma feliz exceção. Agradeço sinceramente a William Alves que a organizou e aos internautas que me fizeram tantas perguntas desafiadoras!