A LUA MORENA

(fragmentos)

 

 

* * *

Pouco importa, menina linda,

que você calce sapatos de salto raso,

que dê gargalhadas a todo propósito,

que fume cigarro sobre cigarro,

dizendo que, lá no mundo das artes,

esse pecado é dos menores.

 

Pouco importa, menina doida,

que você goste de bater papo

sem nunca discernir o bom do ruim, o caro do baratíssimo;

que tinja a cabeleira de não se sabe que cor:

a gente vê e só encolhe os ombros;

que não entenda de etiqueta nem de política.

 

Pouco importa, menina minha,

que você sempre me sirva um jantar esturrado,

voltando eu do trabalho com fome,

e fique choramingando, quando reparo nisso,

como se no estômago

meu coração residisse.

 

Pouco importa, enfim, que você tenha

montes de pechas miúdas e perdoáveis!

O importante é que a vida nos outorgou a chance,

a única e divina chance de vermos o céu altivo de perto,

e que os beijos seus, em vez de saber a chiclete,

sabem a primavera...

 

* * *

Você sorri pra mim e pra ninguém,

pra todos nós, adultos e crianças,

pra todos os que creem no Porvir,

pra quem está em busca da Beleza.

Você sorri, e com o sol travesso

das terras tropicais é parecido

seu modo de sorrir: o ar pulula

de tantas chispas rubras e azuis

que, tendo por saradas as mazelas

do dia a dia, cada um se sente

feliz ou, pelo menos, fascinado –

os homens sonham em amar demais,

em ser amadas mesmo, as mulheres.

Você sorri de modo que me deixo

levar por emoções, e não atino

com o porquê do júbilo sereno

que transparece no sorriso seu,

nas horas nada ledas, inclusive.

Talvez se ria corajosamente

das manhas e manias deste mundo;

talvez se regozije de fazer

meu coração bater descompassado.

Talvez, talvez... Mas qual a diferença,

se, mal me volta as costas, escurece,

e, num piscar de olhos, viram cinza

os cálidos matizes do viver?...

 

***

Eu vivo à sombra das tuas pestanas.

Se bem que pareças ainda menina,

por ti conquistado, meu mundo caduco

à sombra das tuas pestanas repousa.

Estar ao teu lado, pequena, temendo

que fosses embora um dia nefasto,

seria penoso, se não procedesse

tamanho consolo de estar ao teu lado!

 

Não sei se me amas ou finges amar-me,

que muito volúveis são nossos amores,

mas sempre que olhas pra mim, sorridente,

falando, prolixa, dum novo vestido,

da chuva teimosa, dos filmes em voga,

de quanto gastaste no supermercado,

é como se lesses um livro que trata

com rústicos termos do céu soberano.

 

Apenas me beijas e passas de leve

a mão pela minha cabeça dorida,

ou grudas teu corpo no meu de maneira

que vibram os dois de tensão e desejo,

não posso nem quero pensar noutra coisa

senão em deter-te nos ávidos braços

até se soltarem os nós derradeiros,

as últimas cordas de vez se calarem.

 

Tu és o maior dos milagres profanos:

o mar que se vê, transcendente paisagem,

da minha janela, o sol a benzer-me,

a brisa de cujo frescor necessito.

E se me esperassem mil anos de vida,

trocá-los por uma só década ia,

contanto que Deus permitisse contigo

viver esse tempo de cabo a cabo.

 

Amada, enquanto medir o ponteiro

as horas fugazes do nosso presente,

ninguém poderá nos privar do futuro.

Enquanto a mim pertenceres, amada,

eu tenho certeza de que não iludem

os cândidos contos do arco-da-velha,

de que nos unimos por obra do fado

e não por acaso, eu tenho certeza.