Entrevista concedida a Sthevo Damaceno e publicada no jornal Mania de Saúde em 04 de maio de 2016

 

Literatura russa: uma paixão nacional

 

Nelson Rodrigues dizia que quis ser escritor depois de ler Crime e Castigo, clássico de Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Quantos não pensaram o mesmo ao conhecer a obra deste russo que é considerado um dos maiores autores da literatura mundial? Até hoje, Dostoiévski suscita debates e aviva leitores, sobretudo no Brasil, onde a literatura russa sempre despertou paixões. Basta olhar a nossa história literária ou a quantidade de jovens que hoje fazem resenhas audiovisuais de clássicos russos pelo Youtube.
Para entender por que Dostoiévski e a literatura russa possuem tantos admiradores no Brasil e no mundo, o Mania de Saúde entrevistou, com exclusividade, o tradutor Oleg Almeida, que tem vertido para o português diversos autores do cânone russo. Ele, que nasceu na Bielorrússia (mesmo país da escritora Svetlana Alexievich, Nobel de literatura que marcará a Festa Literária Internacional de Paraty no mês que vem) mudou-se para o Brasil em 2005 e tem feito importantes traduções diretamente das obras originais, algo que tantos leitores brasileiros desejaram ao longo dos anos. Os livros, editados com requinte pela Martin Claret, demonstram não só que a literatura russa é uma das mais admiradas pelos brasileiros, como também o próprio livro – e uma história bem contada – pode mudar as vidas de qualquer um de nós. 

 

1 – O Sr. se mudou para o Brasil em 2005. Como foi essa vinda e qual foi a sua primeira impressão do país? No campo literário, o que o Sr. achou interessante? Perguntamos isso porque a literatura russa sempre teve uma imagem muito forte no Brasil, quase sacra. Mas, no Leste Europeu, autores como Dostoiévski, Tolstói e Górki são vistos de que maneira? É parecido com o que ocorre no Brasil? 

Oleg Almeida: Quando acabava de desembarcar no Brasil (foi em julho de 2005, mas parece que aconteceu só ontem...), fiquei impressionado com toda aquela diversidade que via ao meu redor: não apenas com a diversidade das paisagens ou dos tipos étnicos do país, mas em primeiro lugar com a de suas manifestações culturais. Não seria exagero afirmar que a exuberância do cenário artístico brasileiro, tão aberto a inovações internas e suscetível a influências vindas de fora, pesou bastante em minha decisão de trilhar caminhos literários. Foram os exemplos de Clarice Lispector e de Paulo Rónai, dois forasteiros tidos, nos dias atuais, como grandes estrelas das letras brasileiras, que me instigaram a abraçar esta carreira de escritor e tradutor que tenho buscado seguir na última década. O que também me surpreendeu nesse meio-tempo, foi justamente a paixão pela literatura russa de que estamos falando. E meu espanto foi tanto maior que na própria Rússia os escritores se classificam de praxe em bons, medíocres ou ruins, mas nenhum deles (à exceção, talvez, do poeta Alexandr Púchkin) chega a ser endeusado. O leitor brasileiro idolatra, por tradição, Dostoiévski e Maiakóvski, mas será mesmo que os conhece o suficiente para idolatrá-los? Creio que não, pois a maioria das obras clássicas russas ainda está à espera de seus tradutores. Apesar de algumas dessas obras terem sido traduzidas diretamente do russo, as traduções indiretas, baseadas em antigas versões francesas ou inglesas, continuam a ocupar boa parte do mercado livreiro, e sua qualidade, ou melhor, sua equivalência aos textos originais não cessa de ser questionada por quem as lê. Tradutor profissional que sou, resolvi preencher, na medida do possível, essa lacuna, e a proposta da editora Martin Claret, que me contratou em 2011, veio bem a calhar. Não sei se conseguirei revelar ao Brasil, pelo menos, um décimo da prodigiosa riqueza das letras russas, porém me esforço para fazê-lo. Esforço-me, aliás, para valer (risos)...

 

2 – O Sr. conseguiria sintetizar por que o culto a Dostoiévski é tão grande? O que a literatura dele tem de diferente de tudo o que houve até antes? O que a obra dele mudou em termos de percepção literária? 

OA: Dostoiévski se tornou célebre no mundo inteiro por duas razões essenciais. Por um lado, ele inaugurou uma poderosa vertente psicológica na literatura universal. Se seus contemporâneos, fossem românticos ou realistas, descreviam habitualmente a ação dos personagens em cena, priorizando uma visão material da vida humana, Dostoiévski passou a esquadrinhar a motivação dos eventos descritos e, dessa forma, pôs em foco vários aspectos espirituais que antes quase não atraíam a atenção dos ficcionistas. Por outro lado, as profecias literárias de Dostoiévski, sobretudo aquelas que se referem à degradação moral da humanidade com a perda de seus valores e rumos eternos, confirmaram-se ao longo do século XX cuja civilização se mostrou amiúde mais bárbara ainda que a famigerada barbárie pré-histórica. Os temas de descrença e negação dos preceitos cristãos, de carência afetiva, incompreensão mútua e falta de solidariedade, de violência e opressão interpessoais, peculiares ao homem moderno ou então resultantes de graves patologias psíquicas que o acometem, estão sempre presentes nas obras do mestre russo; as penosas erranças da alma que se desvia do seu trajeto normal suscitam nele um interesse constante e profundo. Por isso é que Dostoiévski, sagaz pensador que enxergava muito além da sua época, goza de enorme prestígio até hoje. "Nada de novo debaixo do sol" – essa sentença de Eclesiastes poderia servir de epígrafe a qualquer um dos escritos dostoievskianos: o bem-estar do homem cresce no decorrer do tempo, suas habilidades técnicas se desenvolvem de modo espetacular, mas seus problemas existenciais permanecem os mesmos.

 

3 – A questão do psicológico é realmente muito forte na obra dele? O Sr. acha que Crime e Castigo pode ser visto como um dos pilares da psicologia moderna? 

OA: É claro que não podemos tomar os romances de Dostoiévski por manuais de medicina forense (risos)! No entanto, nunca nos esqueçamos do escopo psicológico desses romances que é, conforme acabei de dizer, seu traço característico. Os criminosos Raskólnikov, Rogójin e Stavróguin, o sinistro "homem do subsolo" que destila, escondido num canto escuro, um ódio assustador pelos seus próximos, o jovem emigrante viciado em jogos de azar a ponto de renegar seu amor e sua pátria, o príncipe Mychkin considerado louco por seus desafetos e mesmo por seus amigos – a conduta de todos esses personagens de Dostoiévski precisa ser vista sob a ótica da psicologia clínica, se não da psiquiatria, para que seus motivos e consequências sejam devidamente esclarecidos. Existe, diga-se de passagem, um bom número de estudos acadêmicos nessa área. A história do assassino Raskólnikov, o protagonista de Crime e castigo atormentado pela consciência de seu pecado mortal, já foi diversas vezes analisada como um caso chocante de sociopatia.

 

4 – Como está sendo a receptividade de suas traduções no Brasil? Acha que os jovens estão se interessando pela leitura? Como o Sr. enxerga a questão do livro em nosso país? 

OA: Ao contrário da crítica especializada que não costuma dar espaço às minhas traduções, os leitores comuns gostam delas: se não gostassem, afinal de contas, não as comprariam. Percebo nisso o principal benefício de minha colaboração com a Martin Claret que se empenha em viabilizar o mais amplo acesso do público (em particular, do público jovem) às obras por mim traduzidas, procurando distribuí-las em massa e por um preço módico. É que não basta explicar por que vale a pena lermos tal ou tal livro. Por mais banal que se apresente esta opinião minha, ele deve ser bom em seu conteúdo, bonito do ponto de vista gráfico e relativamente barato para não se empoeirar nas estantes das livrarias. Se todas as editoras atentassem para esse princípio dos "três B", não necessitaríamos de nenhum programa de estímulo à leitura. Eis uma bela utopia, eu sei, mas não faz mal sonhar um minuto (risos)! E no que diz respeito ao interesse pelos livros em geral, não há dúvida de que ele existe e, digo-lhe mais, está em expansão: meus encontros com os estudantes brasileiros, as palestras que faço de vez em quando nas universidades, bibliotecas públicas, etc., demonstram-no com plena clareza.

Até agora falamos somente de Dostoiévski... Gostaria de frisar, entretanto, que muitos outros literatos de expressão russa merecem ser descobertos pelo leitor brasileiro. Nesse sentido, poderia indicar uma volumosa coletânea de contos russos, também editada pela Martin Claret, cujos primeiros tomos acabam de sair do prelo. Se bem que minha sugestão seja meio suspeita, estou seguro de que as obras reunidas nessa coletânea agradarão tanto ao público leigo quanto ao mais exigente. Tais celebridades como Púchkin e Gógol ombreiam nela com Leskov, Gárchin e similares autores pouco conhecidos no Brasil.

 

5 – O Sr. é poeta e, no Brasil, falar em poesia russa é falar de Maiakóvski. O que acha da obra dele? Acha que ele é bem conhecido no Brasil? Como ele é encarado na Rússia? 

OA: Maiakóvski fez na poesia o que Dostoiévski havia feito na prosa russa: abriu novos caminhos, estabeleceu novas metas, renovou a linguagem literária, mandando os velhos esquemas estéticos para o espaço – numa palavra, revolucionou o gênero em que trabalhava. Os poetas do século XIX esmeravam-se em decantar a beleza da vida, do amor, da natureza, e Maiakóvski criou uma poesia bem diferente, tão polêmica (ferrenho inimigo de tudo o que a Rússia tinha de arcaico e obsoleto, propôs sem mais nem menos "jogar Púchkin e Tolstói do navio de nossa modernidade") que seus primeiros leitores se sentiram literalmente atordoados. Ganhou estrondosa popularidade pelo mundo afora, e se os russos de hoje vêm deixando aos poucos de cultuar suas obras, é porque o ideal comunista que as norteia ficou no passado. Acredito que aquela caprichada tradução dos poemas maiakovskianos, que Boris Schnaiderman efetuou em parceria com os irmãos Campos, fornece aos brasileiros uma ótima oportunidade de conhecê-los, embora o estilo do poeta russo – enérgico, exaltado, por vezes estonteante – não se declara nela em todo o seu esplendor. Os inúmeros antagonismos entre a prosódia russa e a portuguesa transformam, a meu ver, a tarefa de traduzir Maiakóvski num tremendo desafio.