Entrevista concedida a Alan Martins e publicada no blog Anatomia da Palavra em 27 de fevereiro de 2018

Só lendo e refletindo é que terão

uma opinião consciente e independente

 

A vida de blogueiro reserva muitas surpresas. Uma delas (e uma muito boa) foi "topar" com o tradutor de um livro que resenhei. Isso não é algo que acontece todo dia!

Estou falando de Oleg Almeida, bielorrusso que vive no Brasil desde 2005, autor de livros de poesia (escrevendo em português!), além de tradutor. Ele é muito conhecido por suas traduções de obras russas, vertidas diretamente dos originais. Todos sabemos que a história da literatura russa, no Brasil, é marcada por traduções indiretas, fato que Oleg vem ajudando a modificar. Esse é apenas um dos temas dessa entrevista, que ficou uma verdadeira aula sobre tradução, literatura russa e poesia.

Confira como ficou nossa conversa:

 

Alan Martins: Agradeço sua participação em meu blog, obrigado por conceder essa entrevista. Para começar, gostaria que você falasse um pouco sobre quem é Oleg Almeida.

Oleg Almeida: Minha biografia não é tão complexa assim... Eu nasci em 1971, na cidade de Gômel, situada no sudeste da Bielorrússia e próxima às fronteiras da Ucrânia e da Federação Russa. Cresci num ambiente cosmopolita, familiarizando-me, desde adolescente, com quatro idiomas eslavos: o russo, o bielorrusso e, em menor grau, o ucraniano e o polonês. Completei o ensino médio lá mesmo, em Gômel, e depois me formei pela Escola Central das Línguas Estrangeiras em Moscou. Trabalhei, por uma década, na iniciativa privada. Vim ao Brasil em julho de 2005; em fevereiro de 2011 obtive a cidadania brasileira.

 

AM: De onde vem a paixão pela literatura?

OA: O livro sempre foi algo bem respeitado em minha família. Minha avó materna lecionava as letras russas e bielorrussas na escola secundária; minha mãe e meus tios liam bastante... De modo geral, a União Soviética era considerada, nos anos 1970, o país que mais lia no mundo inteiro. Por um lado, os livros eram bons e custavam centavos; por outro, não havia redes sociais nem Internet como tal, e a televisão soviética antes doutrinava do que divertia.

 

AM: Por que a língua portuguesa? Por que o Brasil?

OA: Minha mulher é goiana (risos...). Ademais, tenho um forte vínculo emocional com o Brasil. Gosto das cores vivas, do calor tropical, da algazarra dos bem-te-vis que me acorda pela manhã, do feijão tropeiro e da banana três-quinas frita com farinha de mandioca. Enfim... não sou nenhum turista ou aventureiro que veio ao Brasil ontem, fartou-se de seu exotismo hoje e pretende ir embora amanhã. Moro aqui há mais de 12 anos, e seria algo estranho, nesse contexto, se não falasse português com todo o prazer, como acha?

 

AM: Antes de vir para o Brasil, você já havia atuado como tradutor?

OA: Nem tanto... Fiz um bocado de traduções técnicas do francês, quando trabalhava na sucursal bielorrussa da multinacional Yves Rocher, mas nem imaginava que enveredaria pela tradução literária. Na época, tinha outras metas a atingir... Minha carreira de tradutor começou mesmo aqui no Brasil, em agosto de 2009, quando a Martin Claret decidiu contratar meus serviços profissionais.

 

AM: Como surgiu a primeira oportunidade para uma tradução aqui no Brasil? Foi a editora que encomendou seu trabalho, ou você que foi atrás e insistiu?

OA: Para mim, foi uma experiência meio traumática. Fiquei andando de porta em porta, pedindo para alguém me dar a mínima chance de trabalhar nesse ramo, só que nenhuma das grandes editoras comerciais me abriu suas portas. Já estava prestes a desistir de tudo, quando Rosana Citino, a assistente editorial da Martin Claret, ligou para mim e perguntou se tinha algum texto pronto a ser publicado. Ofereci O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa de Charles Baudelaire, que acabava de traduzir para o português, e foi a primeira tradução minha que apareceu no mercado livreiro. 

 

AM: A editora Martin Claret está fazendo um bom trabalho publicando grandes clássicos com novas traduções, renovando-se após sofrer diversas acusações de plágio. Você sabia da reputação da editora antes de iniciar essa colaboração? Suas traduções possuem um importante papel nessa nova fase da editora, concorda?

OA: É claro que estava a par de todas as acusações dirigidas contra a Martin Claret (aliás, todo mundo falava nisso uns dez anos atrás), mas quase não me importei com elas. Prefiro não condenar os pecados de outrem, pois tenho minhas próprias falhas a corrigir; nunca me esqueço do preceito bíblico "não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados", em particular quando não sei toda a verdade sobre o suposto pecador. Só posso dizer que, hoje em dia, é uma empresa plenamente confiável, que investe pesado na qualidade textual e gráfica de suas edições. Acredito, sim, que meu trabalho, bem como o de muitos outros colaboradores da Martin Claret, contribui para desvanecer toda e qualquer suspeita que venha a pairar sobre ela.

 

AM: A literatura russa é muito apreciada no mundo todo, principalmente a da chamada "Era de Ouro", do século XIX. Qual o diferencial dessa literatura para as outras de seu tempo? Há um autor que você apontaria como grande representante desse período?

OA: Creio que o maior trunfo desta literatura, se vista em comparação com várias correntes ocidentais, é seu riquíssimo teor espiritual, provindo das tradições grega e bizantina assimiladas pelo povo russo. Apenas um exemplo para ilustrar a minha tese. O príncipe Sviatopolk-Mírski, autor da clássica História da literatura russa, chega a estabelecer um curioso paralelo entre as obras de Dostoiévski e as de Alexandre Dumas. Não vou negar, quanto a mim, que há certa semelhança entre esses dois escritores (feitas as contas, Dostoiévski não prescinde de elementos recreativos em seus romances e vai tecendo enredos mirabolantes com a mesma habilidade de seu colega francês), mas faço questão de frisar que também existe uma tremenda diferença entre eles. Dumas mostra seus personagens agirem, de forma dinâmica e direta, sem que a motivação interior das ações descritas seja posta em destaque; Dostoiévski ilumina as profundezas mais obscuras da alma humana para explicitar não apenas de que maneira, mas, sobretudo, por que motivo tal ou tal fato ficou consumado. Em breves termos, Dostoiévski incita o leitor a pensar, enquanto Dumas se limita a entretê-lo. E todos os melhores autores russos são assim, antes virtuoses da introspecção que simples contadores de histórias. Além de Dostoiévski, poderia citar de pronto os "três Ts", isto é, Tolstói, Turguênev e Tchêkhov, cuja escrita é notavelmente psicológica.

 

AM: Dostoiévski foi o autor que você mais verteu para o português. Acredito que nenhum outro autor conseguiu explorar o íntimo de suas personagens assim como ele fez. Se ele vivesse hoje, poderia ser um grande psicólogo, pois suas análises sobre a psique (alma) eram fantásticas para sua época. Quais as suas impressões sobre Dostoiévski? Por que muitos criticam seu estilo, dizendo que falta polimento em suas obras?

OA: Dou toda a razão àqueles estudiosos e críticos que reconhecem Dostoiévski como um dos maiores filósofos e pensadores religiosos da humanidade. O conteúdo de seus escritos é tão denso, a problemática existencial que focalizam é tão relevante, que serão lidos, digamos, daqui a cem anos, com o mesmo interesse que em nossos dias – tenho plena certeza disso! Por outro lado, discordo de quem tomar Dostoiévski por um brilhante estilista (impressão que pode surgir com a leitura das suas traduções indiretas, feitas por interposição do francês). Seu estilo se caracteriza, de fato, por uma aspereza evidente e onipresente: as frases são longas e repetitivas, a narração vem pontuada por contradições, erros lógicos e termos inusitados, há trechos que destoam do texto principal, como se fizessem parte de outra história, e o baixo calão se mistura com a retórica mais sublime, o que transforma a respectiva tradução numa pedreira das grandes (risos...). Contudo, não é nada difícil explicar esse aparente paradoxo. Dostoiévski escrevia, como se diz, ao correr da pena, cumprindo as exigências de seus editores, apressando-se para não estourar os prazos e, ao mesmo tempo, não procurando ser breve, pois era pago por lauda e necessitava resgatar os pertences de sua família que penhorava volta e meia em troca de um pedaço de pão ou um feixe de lenha. O que inspirava Dostoiévski não era "a arte pela arte", mas, sim, aquele desespero cotidiano que o perseguia, aquelas pobreza e injustiça que nunca o deixavam em paz. Será que, nessas condições deploráveis, alguém se preocuparia em excesso com a perfeição estética dos seus textos? E será que as ideias de um escritor renomado não valem bem mais do que sua maneira de expressá-las? Todas as vezes que me encarregam de traduzir Dostoiévski, faço essas duas perguntas a mim mesmo.

 

AM: Você não apenas traduz obras diretamente do russo, porém, acredito que essas traduções são as mais populares, até porque a história da literatura russa no Brasil é marcada por traduções indiretas. Quem começou a mudar esse cenário foi a Editora 34, trazendo clássicos russos com traduções diretas. Hoje vemos diversas editoras investindo nesse tipo de tradução, como a própria Martin Claret. Gostaria que você comentasse sobre as diferenças entre uma tradução direta e uma indireta, se há grandes prejuízos.

OA: A meu ver, a época das traduções indiretas acabou. Comentei acerca disso numa entrevista especial para a revista acadêmica Caleidoscópio: linguagem e tradução, vinculada à UnB. Não vou repetir agora o que já foi dito (quem estiver interessado poderá acessar o link da revista: http://periodicos.unb.br/index.php/caleidoscopio/article/view/27292), mas direi que sempre me espanto e me escandalizo por haver ainda tantas traduções desse tipo! Dá para você imaginar o processo técnico que envolve três línguas e civilizações diferentes? Suponhamos que o famosíssimo romance Anna Karênina, criado por ninguém menos que Lev Tolstói, deva ser traduzido com base em sua versão francesa datada de 1885 e amiúde reeditada mais tarde. Mesmo que essa versão reproduza, com relativa exatidão, todas as peripécias do original russo, tem pouco a ver com ele no sentido de verbalizar a mensagem espiritual do autor, de enfatizar o pano de fundo genuinamente russo dessa obra, sem falarmos naquelas inúmeras minúcias estilísticas que a distinguem dos seus pares literários. Em resumo, não iríamos traduzir o livro de Tolstói, mas antes um romance francês, escrito por um contemporâneo de Maupassant no intuito de agradar aos seus patrícios alheios, em sua maioria esmagadora, à mentalidade e à cultura russas, e o desfecho dessa empresa só poderia dar margem a controvérsias, se não a piadas. Existem umas felizes exceções (como, por exemplo, a antiga versão d'O idiota, assinada por José Geraldo Vieira, que me surpreendeu, lida na íntegra por encomenda da Martin Claret, com sua adequação aos desígnios poético e filosófico de Dostoiévski), mas essas exceções são extremamente raras. Quem se interessar mesmo pela literatura russa insistirá em conhecê-la sem intermédio de quaisquer outras línguas.

 

AM: Na maioria das resenhas e críticas, vemos muito sobre o autor; o crítico fala sobre seu estilo, técnicas e habilidades. Mas dificilmente vemos algo sobre o tradutor, a pessoa que teve o trabalho de transpor a obra para outro idioma (algo que procuro fazer diferente em meu blog). Por que você acha que o tradutor, nessas horas, acaba sendo deixado de lado?

OA: "O silêncio assassina os escritores!": foi o que me disse, certa vez, o editor brasiliense Victor Alegria. O que será que teria dito a respeito dos tradutores, cujo estado normal é um silêncio não apenas profundo como proposital? Nosso papel tem sido subestimado pelas mídias, nossa imagem tem sido deturpada pela opinião pública. Há quem pense, com toda a seriedade, que a gente recorre ao Google Translator e similares dispositivos automáticos para traduzir obras de ficção! E não é nenhum exagero meu: já encontrei umas pessoas que pensavam assim. Se soubessem quanto conhecimento teórico e, principalmente, quanta energia criativa exige a tradução de meia página escrita num idioma tão diferente do português como são diferentes entre si... sei lá... uma bétula e um coqueiro, teriam mais estima pela nossa turma. Esta é a razão pela qual a divulgação se faz necessária para todos nós, que tentamos cultivar as plantas do além-mar no solo brasileiro.

 

AM: Ao navegar pelas mídias sociais, nota-se que o leitor está mais exigente quanto à tradução. Você também enxerga a situação dessa maneira? Essa maior exigência é algo positivo?

OA: Tem razão... Eu também me dou conta dessa tomada de consciência em relação à qualidade das traduções disponíveis e não poderia deixar de aprová-la. Antigamente os leitores se contentavam com tudo quanto o mercado lhes fornecia, até porque não tinham muita escolha; agora que podem escolher entre as versões diretas ou indiretas, arcaicas ou modernas, livres ou rigorosas, ficam mais atentos àquilo que estão lendo. O próximo passo importante seria a implantação da análise crítica dessas versões no nível profissional. As universidades e casas editoriais deveriam pensar mais nisso, senão os comentários ociosos do tipo "Os livros da editora X são bons porque são bons mesmo, e os da editora Y são ruins porque são muito ruins", bem numerosos na Internet, continuarão substituindo as resenhas de verdade e propagando impressões falsas e parciais.  

 

AM: Além de tradutor, você também é um poeta, com livros premiados. É difícil fazer poesia em português? A habilidade de poeta ajuda em suas traduções?

OA: Realmente, três livros meus (Memórias dum hiperbóreoQuarta-feira de Cinzas e outros poemasAntologia cosmopolita) foram editados, em 2008, 2011 e 2013, pela 7Letras; o quarto livro, intitulado Desenhos a lápis e inspirado em minhas passagens por São Paulo, será lançado, ainda este ano, pela Scortecci. E não há dúvida de que a poesia é uma excelente escola literária! Ela disciplina a mente, enriquece o vocabulário, desenvolve o gosto artístico e, por falar em quem se dedica à tradução, ajuda a chegar mais perto do escritor traduzido, a transformar-se, na medida do possível, nesse escritor, a fazer seus textos soarem do mesmo jeito que soam em sua língua nativa. Acho que, se não fosse poeta eu mesmo, teria decerto falhado em traduzir Pequenas tragédias de Alexandr Púchkin e Os cantos de Bilítis de Pierre Louÿs...

 

AM: É mais difícil escrever um bom poema ou fazer uma boa tradução?

OA: É muito mais custoso escrever um poema decente do que efetuar uma tradução satisfatória! Quando traduzo, estou lidando com um texto já consagrado, que nunca reescrevo de acordo com minhas preferências pessoais, mas apenas transponho, com a maior precisão concebível, de um idioma para o outro. Neste caso, minha tarefa consiste em deixar a visão subjetiva fora do processo e produzir uma cópia idêntica (ou, pelo menos, bem semelhante) do original em questão. Agora escrever um poema... são outros quinhentos! Quando se trata de externar minhas próprias ideias e emoções, de ser aquele tradutor do íntimo ao qual se refere Ferreira Gullar, quando não resta nada além de uma folha de papel em branco nem adianta revirar os dicionários em busca de palavras certas e convincentes, aí sim, fico um tanto desconcertado. Por isso é que os livros autorais mal passam de um décimo dos meus escritos.

 

AM: Dentre todas as suas traduções, incluindo romances e contos, qual foi a que deu mais trabalho? E a mais divertida? Há um livro que você gostaria muito de traduzir?

OA: A mais trabalhosa foi, até hoje, a tradução de Crime e castigo, devido ao tamanho descomunal dessa obra e, mais ainda, àqueles desafios linguísticos que rebentam literalmente em cada página dela. E a mais agradável... talvez a d'Uma anedota ruim, também de Dostoiévski, que revela seus talentos satírico e cômico. Fiquei rindo quase o tempo todo, e essas risadas homéricas acabaram mitigando as dificuldades que enfrentava. Os livros que gostaria de traduzir no futuro são múltiplos: Três contos de Gustave Flaubert, novelas de amor e poemas em prosa de Ivan Turguênev, Alamedas escuras de Ivan Búnin, que foi o primeiro escritor russo galardoado com o Prêmio Nobel e, não obstante, permanece ignorado no Brasil, entre outros. Gostaria, outrossim, de escrever novos poemas e de levar adiante os que mantenho engavetados: traduzindo em escala industrial (risos...), costumo deixar muita coisa para depois, só que "depois" e "jamais" não são dois sinônimos!

 

AM: Para finalizar, qual recado você deixaria para o leitor brasileiro?

OA: Os conselhos que poderia dar aos leitores brasileiros, especialmente aos leitores jovens, que vêm construindo aos poucos sua erudição literária, seriam os seguintes. Leiam Balzac, Dostoiévski, Machado de Assis e outros autores sérios: nem que essa leitura pareça chata e cansativa, não lhes ensinará nada que seja prejudicial. E não confiem demais naquelas informações negativas, ambíguas ou sensacionais que circulam pelo espaço virtual: só lendo e refletindo é que terão uma opinião consciente e independente.

 

Gostou da entrevista? Muito rica, não?

Conheça mais sobre Oleg Almeida:

https://sites.google.com/site/olegalmeida/.

 

Obrigado por ler até aqui!

Alan Martins.