Entrevista concedida a Ana Helena Rossi e Sara Lelis de Oliveira e publicada na revista Caleidoscópio: linguagem e tradução (Volume I, Número 2, pp. 109-116) em 06 de dezembro de 2017

 

1) caleidoscópio: A França teve um papel fundamental no que se refere à divulgação da literatura russa e ao seu prestígio no Ocidente. Como você vê a importância da literatura russa traduzida na França, e depois traduzida no Brasil?

Oleg Almeida (OA): Na Idade Média, quando a herança cultural da Grécia antiga ficou relegada a segundo plano e o latim se tornou a língua universal da igreja católica e, nessa sua qualidade, um meio de comunicação entre as pessoas cultas de toda a Europa, surgiu a antológica expressão Graeca non leguntur em que se refletia a mentalidade da época. A partir do século XVIII, tendo o imperador Piotr I, conhecido no Ocidente sob o nome de Pedro, o Grande, aberto "uma janela para a Europa", conforme diz Púchkin em seu poema O cavaleiro de cobre, tal expressão se transformou, para a maioria absoluta dos europeus, em Rossica non leguntur. Os ingleses, os alemães, os holandeses que visitavam a Rússia por motivos comerciais, ou então por mera curiosidade, consideravam-na apenas como um imenso país exótico, se não esquisito, cujos recursos naturais geravam, porém, lucros invejáveis, mas nenhum deles se interessava pelas artes russas, tidas como imitativas e secundárias. Foram notadamente os intelectuais franceses que se empenharam em divulgá-las e obtiveram, nessa área, resultados bem convincentes. No decorrer do século XIX, tudo quanto vinha da França, fossem modas, guloseimas ou livros, era tomado por algo exemplar em matéria de bom gosto, além de moderno e inovador no mais alto grau, de sorte que as obras artísticas valorizadas pelo público francês adquiriam igual valor naqueles países onde se fazia sentir a mínima influência francesa. Creio que não exageraria afirmando que, se os brasileiros não tivessem descoberto, em particular, a literatura russa graças ao feliz intermédio da França, teriam demorado bastante a descobri-la... Aliás, os russos, de sua parte, estão muito gratos à França por ter promovido suas belas-letras, sua pintura clássica, sua música erudita e, um pouco mais tarde, seu portentoso balé nos quatro cantos do mundo.

 

2) caleidoscópio: Durante o século XX, o leitor brasileiro acessou a literatura russa pelas traduções indiretas vindas do francês. Você considera que o leitor brasileiro pôde conhecer a alma literária russa?

OA: Não... categoricamente não, porquanto não acredito na própria possibilidade de ser realmente satisfatória uma tradução que não se embase no texto original e, sim, numa tradução preexistente. Digamos que, lendo as traduções indiretas de obras russas, o leitor brasileiro se familiarizou com o conteúdo dessas obras, chegando talvez a admirar seu brilho externo, mas não enxergou a singularidade de seus respectivos estilos nem se inteirou de todas aquelas minúcias – cores, sons, cheiros, sabores, gestos, olhares, etc., ad infinitum – que diferenciam um escritor do outro, uma vertente estética da outra. É óbvio que cada qual dos principais autores russos tem sua linguagem inconfundível e sua prosódia ímpar (Gógol: mistério e ironia; Dostoiévski: angústia e caos; Tolstói: majestade e harmonia...), dada a extraordinária flexibilidade de seu idioma nativo cuja gramática permite expressar a mesma ideia ou retratar a mesma situação de várias maneiras dessemelhantes. Contudo, uma vez traduzidos para o francês com suas inúmeras sintagmas e a rigidez cartesiana de seu sistema gramatical, eles se parecem entre si como se tivessem todos algum princípio austero a seguir, alguma regra determinante a aplicar. Imaginemos agora que fim levariam o mistério, o caos e a harmonia em questão caso, já nivelados em sua versão francesa, esses autores fossem depois retraduzidos para o português, despercebendo-se amiúde, para mal dos pecados, quão pouco têm em comum os contextos socioculturais da Rússia, da França e do Brasil, ou seja, dos três países envolvidos no processo da tradução indireta? Acho que a resposta está clara: não há quem passe por uma metamorfose dessas e permaneça em seu estado primitivo.

 

3) caleidoscópio: Na sua opinião, qual é a explicação sobre o fato de ter havido pouca tradução do russo diretamente para o português ?

OA: Esse fato se explica, antes de tudo, pelo desconhecimento da língua russa, que é um problema imposto pelas circunstâncias históricas. Os imigrantes russos não vieram em massa radicar-se no Brasil, como o fizeram, por exemplo, os expatriados italianos, alemães e poloneses; as relações diplomáticas entre a Rússia e o Brasil foram desfeitas logo após a revolução comunista de 1917, reatadas em 1945, rompidas de novo em 1947, bem no início da Guerra Fria, e só restabelecidas em 1961, quando a humanidade inteira se entusiasmou com o voo cósmico de Gagárin e outros feitos da União Soviética; os intercâmbios de toda espécie, propícios à aproximação dos dois países, sempre se restringiram ao mínimo necessário... Destarte, o primeiro curso regular do vernáculo russo, o do professor Boris Schnaiderman, foi implantado, em São Paulo, somente na década de 1960 e levou anos para ganhar corpo. Até hoje em dia, apesar de o ensino acadêmico do russo ter feito avanços espetaculares, não é nada fácil encontrarmos, pelo Brasil afora, um bom tradutor desse enigmático idioma.

 

4) caleidoscópio: Quando a literatura russa começa a ser divulgada na França? Quais os motivos?

OA: Os franceses reconheceram o potencial da literatura russa em meados do século XIX. Àquela altura, as desavenças políticas que tinham ocasionado os conflitos internacionais de 1805 e 1812, narrados por Lev Tolstói em sua epopeia Guerra e paz, estavam no passado, e a França colaborava com o Império Russo nas mais diversas esferas de interesse mútuo. Não existia, ademais, nenhuma barreira linguística entre as duas nações, visto que a elite russa era francófila a ponto de preferir o francês, que usava com plena desenvoltura, à língua pátria. Aí me recordo de Madame de Ségur, autora de Les Malheurs de Sophie e Les Petites Filles modèles, que era filha do governador moscovita e se chamava, quando mocinha, Sofia Rostoptchiná, bem como do famoso lírico russo Fiódor Tiútchev que passeava, num dia chuvoso, em seu jardim, depois voltou para casa, disse à sua filha: « J’ai fait quelques rimes, mon enfant », pois não costumava falar russo na vida cotidiana, e logo a seguir escreveu, em russo, um belíssimo poema sobre as lágrimas humanas a fluírem, aqui e acolá, como uma chuva outonal. Nessas condições, seria deveras estranho se as letras russas não tivessem granjeado a simpatia dos leitores franceses, ainda mais que dezenas de ilustres contemporâneos contribuíram para tanto de forma recíproca e frutuosa. Basta citar os nomes de Prosper Mérimée, que aprendeu o russo no intuito de ler e traduzir Púchkin, e de Ivan Turguênev, que construiu uma verdadeira ponte literária entre a Rússia de seu oponente Dostoiévski e a França de seu amigo Flaubert, para ver que o esforço, de ambos os lados, foi invulgar.

 

5) caleidoscópio: Qual é o interesse dos tradutores de russo em traduzir para a língua portuguesa?

OA: Não vou discorrer, neste exato momento, sobre a importância geral da literatura russa, senão a nossa conversa nunca acabará! Limitar-me-ei a notar que a traduzem para o português (e quaisquer outras línguas também) porque é grande e merece, em razão de sua grandeza, transcender o espaço geográfico onde se desenvolveu.

 

6) caleidoscópio: Como você define "tradução direta" e "tradução indireta"?

OA: Para quem se contenta em deslizar pela superfície de uma obra literária, sem procurar pelo que está por trás das peripécias nela descritas, a tradução indireta pode constituir uma opção aceitável; para quem pretende ir mais fundo, buscando compreender as sutilezas do original russo, a tradução baseada neste original será insubstituível. E, para quem puser a minha tese em dúvida, tentarei justificá-la com um exemplo simples e objetivo. Lembremos uma das frases iniciais do romance Anna Karênina, de Tolstói, que todo leitor russófono sabe de cor e salteado: Всё смешалось в доме Облонских. A versão literal francesa – Tout s’était confondu chez les Oblonski – não se discute, mas tem, mesmo que se abstenha de questionar o uso do plus-que-parfait e a conotação arcaica do verbo confondre, ao menos duas leituras plausíveis: Tudo se confundira na casa dos Oblônski/Tudo se perturbara na família Oblônski. Um leitor atento perguntaria sem dúvida qual delas corresponde melhor ao texto original, enquanto um leitor distraído não prestaria tanta atenção a essa duplicidade. E não nos esqueçamos, por fim, de que estamos lidando com uma só frase, composta de 5 palavras, e que a narrativa de Tolstói contém cerca de 272000 palavras e, consequentemente, milhares de tais passagens ambíguas ou suscetíveis de interpretação múltipla...

 

7) caleidoscópio: Em resumo, nem as traduções consagradas, como a de Crime e castigo, que Rosário Fusco efetuou nos anos 1940, ou a d'Os irmãos Karamázov, que Herculano Villas-Boas fez recentemente, são confiáveis por se ancorarem nas versões francesas?

OA: Não posso dizer nada a respeito dessa tradução de Rosário Fusco, já que não a conheço de perto. Quanto à tradução de Herculano Villas-Boas, não apenas a li na íntegra, pouco antes de lançada pela Martin Claret, como também a cotejei com o texto dostoievskiano, e fiquei satisfeito com ela. Se fiz certas correções a fim de "russificá"-la na medida do possível, foram todas indispensáveis e não alteraram, de modo algum, a premissa metodológica do tradutor. Queiramos ou não, Herculano é um daqueles profissionais que não comem seu pão à toa: sua intuição filológica lhe permitiu, a par de seu excelente preparo técnico, criar uma visão lúcida e precisa do romance, que ele traduziu com esmero e consciência da responsabilidade que assumiria perante quem viesse a lê-lo.

 

8) caleidoscópio: O tradutor Boris Schnaiderman fala da tradução como 'ato desmedido', título do seu livro. Como você interpreta a questão do 'intraduzível'?

OA: O mestre sabia bem o que estava dizendo: a tradução literária, quando levada a sério, c’est la mer à boire! Por mais que se faça para aproximar o texto traduzido do original, maior parece a distância que os separa; por mais habilidoso que seja o tradutor, sempre há termos, locuções e trechos inteiros que o desesperam. Como soariam em português as expressões idiomáticas voir la feuille à l’envers ou дым идёт коромыслом (são as primeiras que me vêm à cabeça...) que significam, se traduzidas ao pé da letra, ver a folha [de árvore] às avessas e a fumaça se faz koromyslo, isto é, aquela vara recurva da qual as camponesas russas se serviam, nos tempos idos, para carregar dois baldes d'água ao mesmo tempo? Para um francês, cujo imaginário abrange desde Julie a ganhar seu beijo inesquecível no idílico bosque de Rousseau até Emma Bovary que "se abandonou" sob as abóbadas da pitoresca brenha flaubertiana, e para um russo, que associa a fumaça às trevas e ao pecado, e o tal de koromyslo à "barra pesada", seriam dois belos tropos poéticos, mas se revestiriam do mesmo sentido para um lusófono? O intraduzível é tudo aquilo que não encontramos em nosso dia a dia, que não faz parte de nossa realidade material e mental, e não adianta recorrermos aos dicionários para compreender o que, vez por outra, nem sequer imaginamos. "A língua não é uma simples nomenclatura" – postula André Martinet em seus Elementos de linguística geral. – "A cada língua corresponde uma organização particular dos dados da experiência. Aprender outra língua não é colocar novas etiquetas sobre os objetos conhecidos, mas antes se habituar a analisar de outra maneira o que for o objeto da comunicação linguística". Se porventura nos esquecêssemos disso, correríamos o perigo de sucumbir ao intraduzível, não é verdade?

 

9) caleidoscópio: Você verteu para o russo a peça teatral Tu país está feliz, publicada em 2011 pela editora Thesaurus/Fundo de Apoio à Cultura (FAC), em Brasília, assim como uma série de poemas avulsos (Poexílio: Brasília, 2015), de Antonio Miranda. Como foi essa experiência de tradução?

OA: Foi uma experiência tão desafiadora quanto enriquecedora, sobretudo no tocante a Tu país está feliz, pois se tratava de verter para o russo uma obra visceralmente latino-americana e, ainda por cima, muito complexa do ponto de vista estilístico. Incumbi-me dessa tarefa como poeta que sou e, não obstante o intraduzível sobre o qual acabamos de conversar e que se apresentou a mim em forma de "o Salvador Dali nem era daqui" e similares pérolas verbais, acredito que me desincumbi dela sem ter decepcionado o autor, que acompanhou todo o meu trabalho e me ajudou, em mais de uma ocasião, com seus generosos conselhos, nem os leitores russófonos a quem forneci o ensejo de conhecerem a feérica peça mirandiana. Mas o que me orgulha em especial é que esse ensejo tem sido o primeiro e único: de fato, nem Martins Pena, nem Artur de Azevedo, nem mesmo Nelson Rodrigues ainda chegaram àquelas paragens!

 

10) caleidoscópio: Quais são os seus projetos de tradução atualmente?

OA: Acabo de traduzir os Contos seletos de Tolstói, que provavelmente serão publicados no ano que vem. Gostaria de editar, além disso, Carmen e outras novelas de Mérimée, cuja tradução, ora terminada, estou revisando, pouco a pouco, nas horas vagas. Afinal, espero que comece, literalmente nas próximas semanas, a tradução dos contos Noites brancas e O eterno marido de Dostoiévski, que vão ampliar a extensa série de suas obras que já traduzi. Numa palavra, minha agenda está meio lotada...