Maxim Górki

O Homem

I

... Nas horas da fadiga de espírito – quando a memória ressuscita as sombras do passado e o coração volta a sentir seu frio, quando o pensamento, feito o impassível sol outoniço, ilumina o medonho caos do presente e gira, sinistro, por sobre a confusão cotidiana, incapaz de subir mais alto e voar para frente –, nas duras horas da fadiga de espírito, eu fico evocando a majestosa imagem do Homem.

Homem! Igual ao sol, nasce no meu peito e, todo luminoso, põe-se a marchar – para frente e para o alto! – o Homem tragicamente belo!

Eu vejo a altiva fronte e os olhos bravos e profundos dele, e nesses olhos, os raios do intrépido Pensamento, daquela nobre força que, nos momentos de cansaço, cria os deuses e, nas épocas de ânimo, acaba com eles.

Perdido no meio dos desertos universais; sozinho num palmo de terra a precipitar-se, com uma rapidez inconcebível, não se sabe aonde, ao fundo de um espaço imensurável; atormentado pela questão pungente – para que é que ele existe? – o Homem segue corajosamente o caminho de superação de todos os mistérios terrestres e celestiais: para frente e para o alto!

Ele vai, regando com sangue de coração seu árduo, solitário e orgulhoso caminho, e desse sangue quente faz as eternas flores da poesia; hábil, ele transforma o grito lúgubre de sua alma revoltada em música e suas práticas, em ciências; como o sol, cujos raios adornam, generosos, a terra, como uma estrela guia, ele vai – sempre para o alto e para frente! – e cada passo seu adorna a vida...

 

Armado apenas com a força do Pensamento que lembra ora um relâmpago ora uma espada friamente calma; ultrapassando de longe as pessoas e a própria vida, o livre e orgulhoso Homem vai – a sós com os enigmas da existência, sozinho na multidão de seus erros –, e todos eles oprimem e ferem seu coração, torturam-lhe a mente e pedem que os extermine, envergonhado.

Vai! No seu peito, bradam os instintos; qual um mendigo importuno a pedir esmola, não para de lamentar-se, abominável, o amor-próprio; os fios viscosos dos apegos envolvem, iguais à hera, o coração dele e bebem seu quente sangue, em altas vozes exigindo que ceda à sua força... Todas as emoções querem rendê-lo; tudo aspira a apoderar-se da sua alma.

E montes de variadas ninharias do dia a dia parecem lama e nojentos sapos no seu caminho.

Mas como os planetas circundam o sol, as obras do espírito criativo rodeiam o Homem: seu Amor sempre esfomeado; a Amizade que o segue de longe, coxeando; a Esperança que o antecede, cansada; eis o Ódio que, tomado de Cólera, faz tinirem os grilhões da paciência, e a Fé que fixa seus olhos escuros no rosto rebelde do Homem, a recebê-lo, serena, de braços abertos.

Ele conhece a todos na sua triste comitiva: as obras de seu espírito criativo são feias, imperfeitas e fracas!

Trajando os farrapos das obsoletas verdades, envenenadas por preconceitos, elas se arrastam, inimigas, atrás do Pensamento, mas não conseguem alcançá-lo, assim como o corvo não se equipara, levantando voo, à águia, e, contestando sua primazia, raramente se unem a ele numa chama potente e criadora.

 

E aí mesmo, a muda e misteriosa Morte, perpétua companheira do Homem, sempre pronta a beijá-lo no coração queimado pela sede de viver.

Ele conhece a todos na sua imortal comitiva e, para terminar, mais algo: a Loucura...

Alada, poderosa feito um turbilhão, ela o acompanha com seu olhar hostil e, ansiosa por meter o Pensamento na sua dança selvagem, inspira-o com sua força...

Mas só o Pensamento é amigo do Homem: o Homem nunca se separa dele; só as chamas do Pensamento é que iluminam os obstáculos no seu caminho, alumiam os enigmas da vida, a treva dos mistérios naturais e o caos obscuro no coração do Homem.

Livre amigo do Homem, o Pensamento passa seu olhar penetrante e arguto por toda a parte e, inclemente, ilumina tudo:

As artimanhas pérfidas e torpes do Amor, seu desejo de dominar o ser amado, anseio de humilhar e humilhar-se, e o semblante vil da Sensualidade por trás dele; a impotência temerosa da Esperança e, por trás dela, sua irmã Mentira, pintada e ataviada Mentira sempre pronta a consolar – e enganar – todo o mundo com suas doces palavras.

No coração mole da Amizade, o Pensamento ilumina sua prudência interesseira, sua curiosidade cruel e oca, as manchas pútridas da inveja e nelas, germes da calúnia.

O Pensamento percebe a força do Ódio negro e sabe: uma vez livrado dos ferros, ele destruirá tudo na terra e nem um broto da justiça poupará!

Na Fé imóvel, o Pensamento ilumina a maldosa sede do poder ilimitado, que busca subjugar todos os sentimentos, e as garras ocultas do fanatismo, e a fraqueza das asas pesadas, e a cegueira dos olhos vazios dela.

Até com a Morte ele trava luta: depois de transformar o animal no Homem, depois de criar tantas divindades, doutrinas filosóficas, ciências – chaves dos enigmas mundiais – o imortal e livre Pensamento se vê contrário e adverso àquela força infecunda e, muitas vezes, estupidamente má.

A Morte, para ele, é um trapeiro – trapeiro que anda pelos fundos e põe no seu imundo saco o que estiver caduco, podre, inúteis restos, mas vez por outra, furta, insolente, o que ainda é forte e saudável.

 

Impregnada de cheiros de podridão, coberta de horrores, impassível, informe, muda, a Morte enfrenta sempre o Homem, como um mistério negro e severo, e o Pensamento – criador e luminoso, feito o sol, cheio de audácia louca e de altiva consciência de sua imortalidade – esmera-se em estudá-la.

Assim é que marcha o Homem insubmisso, atravessando a pavorosa treva dos mistérios existenciais: para frente e para o alto! Sempre para frente e para o alto!

(...)

Maxim Górki (Alexei Maxímovitch Pechkov) (1868-1936), famoso escritor russo e soviético, fundador do chamado realismo socialista. Principais obras: romances A mãe (1907), A casa dos Artamônov (1925), A vida de Klim Samguin (4 volumes, 1925-1936); peças de teatro No submundo (1902), Os filhos do sol (1905), Os inimigos (1906); trilogia autobiográfica Infância, No mundo e Minhas universidades (1913-1923).