Charles Baudelaire

 

O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa

VI. Cada um com sua quimera

Sob um vasto céu gris, numa grande campina poenta, sem caminhos, sem ervas, sem um cardo nem uma urtiga, eu encontrei muitos homens que marchavam curvados.

Cada um deles carregava nas costas uma enorme Quimera, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão, ou então os petrechos de um legionário romano.

 

Porém o monstruoso bicho não era uma carga inerte; pelo contrário, ele envolvia e apertava o homem com seus músculos elásticos e potentes, cravava duas garras compridas no peito da sua cavalgadura, e a cabeça fabulosa dele sobrepujava a testa do homem como um daqueles elmos horríveis por meio dos quais os antigos guerreiros procuravam acrescentar ao terror do inimigo. Eu abordei um desses homens e perguntei-lhe aonde eles iam assim. O homem respondeu que nem ele nem os outros sabiam nada disso, mas que, evidentemente, eles se dirigiam para algum lugar, impelidos por uma invencível necessidade de marchar.

Coisa estranha a notar: nenhum desses viajantes parecia irritado com a besta-fera suspensa no seu pescoço e colada às suas costas, como se a considerasse parte dele mesmo. Todos esses rostos cansados e sérios não testemunhavam desespero algum; sob a cúpula tediosa do céu, os pés engolfados na poeira de um solo tão desolado quanto aquele céu, eles caminhavam com a fisionomia resignada de quem se vê condenado à eternal esperança.

E o cortejo passou a meu lado e afundou-se na atmosfera do horizonte, lá onde a superfície arredondada do planeta se esquiva à curiosidade do olhar humano.

E, durante alguns instantes, obstinei-me em querer compreender esse mistério, mas pouco depois uma irresistível indiferença veio desabar sobre mim, e eu fiquei mais oprimido por ela do que os homens pelas suas esmagadoras Quimeras.

 

 

X. A uma da madrugada

 

Enfim, sozinho! Não se ouve mais nada, salvo o rodar de uns fiacres tardios e exaustos. Durante algumas horas, possuiremos o silêncio, senão o repouso. Enfim: a tirania da cara humana desapareceu, e agora eu vou sofrer só por mim mesmo.

Enfim me será permitido relaxar num banho de trevas! Primeiro um duplo giro de chave na fechadura. Parece-me que ele aumentará minha solidão e fortificará as barricadas que me separam atualmente do mundo.

Horrível vida! Horrível cidade! Recapitulemos o dia: ter visto vários homens de letras, um dos quais me perguntou se dava para ir à Rússia por terra (não há dúvida de que ele tomava a Rússia por uma ilha); ter discutido generosamente com o diretor de uma revista que a cada objeção respondia: "Nosso negócio aqui é honesto", o que implicava que todos os outros jornais fossem redigidos pelos velhacos; ter cumprimentado umas vinte pessoas, inclusive quinze desconhecidas; ter distribuído apertos de mão na mesma proporção, e isso sem ter comprado, por cautela, um par de luvas; ter subido, para matar o tempo durante um aguaceiro, ao quarto de uma rapariga que me pediu para lhe desenhar um traje de Vênusa; ter cortejado um diretor de teatro que disse, mandando-me embora: "Você faria, talvez, bem em recorrer a Z...; é o mais lerdo, o mais tolo e o mais célebre de todos os meus autores; com ele você poderia, talvez, conseguir alguma coisa. Veja-o, e depois nós veremos"; ter-me gabado (para quê) de várias vilezas que jamais praticara e covardemente negado umas faltas que cometera com alegria, delito de fanfarrice, crime de respeito humano; ter recusado um serviço fácil a um amigo e dado referências escritas a um rematado patife; ufa, será tudo?

 

Descontente de todos e descontente de mim, eu gostaria de redimir-me e orgulhar-me um pouco no silêncio e na solidão da noite. Almas dos que amei, almas dos que cantei, deem-me forças, apoiem-me, afastem de mim a mentira e os miasmas corruptores do mundo, e vós, Senhor meu Deus, concedei-me a graça de produzir uns bons versos que me provem a mim mesmo que não sou o último dos homens nem inferior àqueles que estou desprezando!

 

XVII. Um hemisfério numa cabeleira

 

Deixa-me respirar, por muito, muito tempo, o aroma dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sedento nas águas de um riacho, e agitá-los com a mão, feito um lenço perfumado, para espalhar recordações no ar.

     

Se tu pudesses saber tudo o que vejo, tudo o que sinto, tudo o que ouço nos teus cabelos. Minha alma viaja pelo perfume como a alma dos outros pela música.

     

Teus cabelos contêm todo um sonho cheio de velames e mastros; há neles grandes mares, cujas monções me levam para as plagas encantadoras, onde o espaço é mais azul e mais profundo, e a atmosfera, impregnada de olores dos frutos, das folhas e da pele humana.

   

No oceano da tua cabeleira, eu entrevejo um porto a pulular de cantos melancólicos, de vigorosos homens de todas as nações e de navios de todas as formas, cujas arquiteturas finas e complexas se destacam sobre um céu imenso, onde se refestela o eterno calor.

   

Acariciando tua cabeleira, eu redescubro o langor das longas horas passadas num divã, na cabine de um belo navio, embaladas pelo balanço imperceptível do porto, entre os potes de flores e cântaros d'água fresca.

   

No ardente forno da tua cabeleira, eu respiro o odor de tabaco misturado com ópio e açúcar; na escuridão da tua cabeleira, eu vejo resplandecer o infinito do azul tropical; pelas margens aveludadas da tua cabeleira, eu me embriago com cheiros entrelaçados de alcatrão, almíscar e óleo de coco.

   

Deixa-me morder longamente as tuas tranças pesadas e negras. Quando mordisco teus cabelos dóceis e rebeldes, parece-me que estou comendo recordações.

 

 

 

Charles Pierre Baudelaire (1821-1867), o maior poeta francês do século XIX. Principais obras: As Flores do Mal (1857), Os paraísos artificiais (1860), O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa (1869).