Vsêvolod Gárchin

 

A flor vermelha

À memória de Ivan Serguéievitch Turguênev

 

I

 

– Em nome de Sua Majestade, imperador Dom Pedro Primeiro, declaro a inspeção deste asilo de loucos!

Essas palavras foram ditas por uma voz alta, brusca, estridente. O escrivão do hospital, que registrava o doente num grande livro posto numa mesa toda manchada de tinta, não pôde conter o sorriso. Mas dois rapazes, que acompanhavam o doente, não riam: eles mal se mantinham em pé ao passar dois dias sem dormir, a sós com o louco que acabavam de trazer por estrada de ferro. Na penúltima estação sua crise de fúria recrudescera; então os rapazes arranjaram, nalgum lugar, uma camisa de força e, chamando os condutores e um gendarme, amarraram o doente. Assim o transportaram até a cidade, assim o trouxeram para o hospital.

Ele estava medonho. Vestido por cima das roupas cinza, que o doente fizera em pedaços durante a crise, um blusão de áspera lona com um largo recorte prendia-lhe o torso; as mangas compridas, atadas por trás, apertavam seus braços cruzados ao peito. Seus olhos arregalados e inflamados (ele não dormia havia dez dias) brilhavam fixos e ardentes; um espasmo nervoso contraía-lhe o lábio inferior; a cabeleira crespa e emaranhada caía sobre a testa, como uma juba; a passos rápidos e pesados, ele percorria a antessala, examinando as velhas estantes com papéis e as cadeiras oleadas, e, vez por outra, olhando de soslaio para seus acompanhantes.

– Levem-no para a enfermaria. A da direita.

– Eu sei, sei. Já estive aqui no ano passado. A gente viu o hospital. Eu sei tudo, será difícil enganar-me! – disse o doente.

Ele se virou para a porta. O vigia abriu-a, e, com o mesmo passo rápido, pesado e resoluto, erguendo sua cabeça insana, o doente saiu da antessala e, quase correndo, dirigiu-se à enfermaria do lado direito. A escolta mal conseguia acompanhá-lo.

– Toca a campainha. Eu não posso. Vocês me amarraram os braços.

O porteiro abriu as portas, e todos entraram no hospital.

Era um grande prédio de pedra, construído, outrora, por conta pública. O andar de baixo ocupavam duas grandes salas, uma das quais servia de refeitório e a outra de aposento para doentes mansos, um largo corredor com uma porta envidraçada que dava para o jardim com seu canteiro de flores, e duas dezenas de quartos separados onde moravam os doentes; ali mesmo, havia dois quartos escuros, um acolchoado e o outro forrado de tábuas, em que trancavam os furiosos, e um enorme cômodo lúgubre, de teto abobadado: o banheiro. O andar de cima era ocupado por mulheres. Um ruído confuso, mesclado com uivos e berros, vinha de lá. Feito para oitenta pacientes, o hospital atendia vários municípios vizinhos, e, portanto, cabiam nele até trezentas pessoas. Cada um de seus cubículos tinha quatro ou cinco leitos; no inverno, quando os doentes não podiam ir ao jardim e todas as janelas com grades de ferro estavam bem fechadas, o ar do hospital ficava irrespirável.

O novo paciente foi conduzido ao cômodo em que se encontravam as banheiras. Capaz de apavorar mesmo uma pessoa saudável, a impressão que este causava era ainda mais forte para sua imaginação perturbada e excitada. Iluminado por uma só janela de canto, esse grande cômodo de teto abobadado e chão de pedra, todo visguento, tinha as paredes e abóbadas pintadas de óleo vermelho escuro; duas banheiras de pedra embutidas no chão preto de lama pareciam duas fossas ovais cheias d'água. Um enorme forno de cobre com sua caldeira cilíndrica para esquentar a água e todo um sistema de tubos e torneiras de cobre ocupava o canto oposto à janela; para uma mente transtornada, tudo ali tinha um aspecto excepcionalmente sinistro e fantástico, e o vigia responsável pelas banheiras, um gordo ucraniano sempre calado, aumentava essa impressão com sua lúgubre fisionomia.

E quando trouxeram o doente para esse terrível cômodo, a fim de banhá-lo e, conforme o sistema de tratamento do médico-chefe, aplicar-lhe na nuca um grande adesivo, ele foi tomado de pavor e cólera. Os pensamentos absurdos, um mais monstruoso do que o outro, rodopiavam na sua cabeça. O que seria aquilo? A inquisição? Um local de execuções secretas onde seus inimigos decidiram acabar com ele? Talvez o próprio inferno? Ficou pensando, enfim, que era uma provação. Tinham-no despido, apesar da resistência desesperada. Com as forças dobradas pela doença, ele se livrava facilmente das mãos de vários vigias, os quais caíam no chão; por fim, quatro homens derrubaram-no e, segurando pelos braços e pernas, puseram na água quente. Achou-a férvida, e um pensamento breve e desconexo, algo sobre a tortura com água e ferro, surgiu na sua cabeça insana. Engasgando-se com água e agitando espasmodicamente os braços e pernas, que os vigias seguravam com toda a força, o doente gritava, sufocado, as palavras sem nexo que não seria possível imaginar sem tê-las ouvido de fato. Eram, ao mesmo tempo, orações e maldições. Ele gritou assim até perder as forças; então, chorando lágrimas amargas, disse em voz baixa uma frase que não tinha nada a ver com suas falas precedentes:

– Ó santo mártir Jorge! Entrego-te o meu corpo. E meu espírito, não – oh, não!..

Os vigias continuavam a segurá-lo, conquanto ele se tivesse acalmado. O banho quente e a bolsa com gelo, que lhe haviam posto na cabeça, surtiram efeito. Mas quando o retiraram, quase desacordado, da água e fizeram sentar-se num tamborete para aplicar o adesivo, o resto das forças e os pensamentos insanos como que explodiram de novo.

– Por quê? Por quê? – gritava ele. – Eu não quis mal a ninguém! Por que vocês me matam? O-o-oh! Ó Senhor! Ó vós que fostes torturados antes de mim! Peço-vos, poupai...

Um toque abrasador na nuca fez com que ele voltasse a debater-se com desespero. A escolta não conseguia rendê-lo nem sabia mais o que fazer.

– Nada a fazer – disse o soldado que efetuava a operação. – Temos que apagar.

Essas palavras simples fizeram o doente estremecer. "Apagar!.. Apagar o quê? Apagar a quem? A mim!" – pensou ele e, mortalmente assustado, fechou os olhos. O soldado pegou nas duas pontas de uma áspera toalha e, com forte aperto, passou-a pela sua nuca, arrancando o adesivo e a camada superior de pele, e deixando à mostra uma escoriação vermelha. A dor provocada por essa operação, insuportável mesmo para uma pessoa calma e saudável, pareceu-lhe a ele o fim de tudo. Desesperado, o doente juntou todas as forças, livrou-se das mãos dos vigias, e seu corpo nu foi rolando pelas lajes de pedra. Pensava que tivessem cortado sua cabeça. Queria gritar e não podia. Levaram-no para a cama num desmaio a que se seguiria um sono longo e profundo, sono de chumbo.

 

II

 

Ele acordou de noite. Estava tudo silencioso; no grande quarto vizinho ouvia-se a respiração dos doentes adormecidos. Algures ao longe, um doente trancado, até a manhã seguinte, no quarto escuro conversava consigo mesmo com uma estranha voz monótona, enquanto em cima, na enfermaria feminina, um contralto rouquenho entoava uma cantiga selvagem. O doente passou a escutar esses sons. Ele sentia imensa fraqueza e fadiga em todos os membros; seu pescoço doía muito.

"Onde estou? O que está acontecendo comigo?" – foi isso que lhe veio à cabeça. E de repente, com uma clareza extraordinária, ele imaginou o último mês de sua vida e entendeu que estava doente e qual era sua doença. Lembrou uma série de ideias, palavras e ações absurdas, e todo o seu ser ficou tremendo.

– Mas já passou, graças a Deus, já passou! – murmurou ele e adormeceu outra vez.

A janela aberta com grades de ferro dava para uma viela entre uns grandes prédios e o muro do hospital; ninguém entrava jamais nessa viela tomada por um arbusto inculto e pelo lilás que florescia, exuberante, nessa estação do ano... Atrás das moitas, bem em frente à janela, havia uma alta cerca escura; todos banhados de luar, os ápices das altas árvores de um vasto jardim viam-se detrás dela. Do lado direito, erguia-se o prédio branco do hospital, cujas janelas com grades de ferro estavam iluminadas por dentro; do lado esquerdo, o muro surdo e branco do necrotério que iluminava a lua. Atravessando as grades da janela, o luar adentrava o quarto, caía no chão e alumiava parte da cama e o rosto do doente, exausto e pálido rosto de olhos fechados; agora não havia nele nada de insano. Era o profundo e pesado sono de um homem extenuado: sem sonhos nem mínimos movimentos, e quase sem respiração. Por alguns instantes, ele acordara em pleno juízo, como se estivesse curado, para amanhecer na mesma loucura.

(...)

 

 

Vsêvolod Mikháilovitch Gárchin (1855-1888), escritor russo, autor de contos e novelas Quatro dias (1877), Os pintores (1879), Attalea princeps (1880), A flor vermelha (1883), entre outros.