Velimir Khlêbnikov

 O Zoo

Ó Jardim, Jardim!

        

Onde o ferro se assemelha ao pai que lembra os irmãos de serem irmãos e dá cabo da sangrenta rixa.

        

Onde os alemães andam bebendo cerveja.

        

E as beldades, vendendo o corpo.

        

Onde as águias se parecem com a eternidade marcada pelo dia de hoje ainda falto de noite.

        

(...)

        

Onde o cervo é apenas um susto a florescer como uma larga pedra.

        

Onde os trajes do povo são chiques.

        

Onde a gente anda triste e com carranca.

        

E os alemães irradiam saúde.

        

Onde o olhar negro do cisne, que é todo semelhante ao inverno e cujo bico preto e amarelo parece um bosque outoniço, está um tanto prudente e desconfiado de si mesmo.

        

Onde o bonitão azul deixa cair sua cauda semelhante àquela que se vê do penhasco de Pavda na Sibéria, quando uma rede azul de nuvens se arrasta pelo ouro das folhas mortas e pelo verde da floresta, e tudo isso se destaca variegadamente sobre os acidentes do solo.

        

Onde se quer pegar a cauda das aves australianas e, batendo nas cordas, cantar as proezas dos russos.

        

(...)

        

Onde os macacos ficam, de várias maneiras, zangados e mostram diversas pontas do tronco, e – menos aqueles que são tristes e pacatos – estão sempre irritados com a presença do homem.

        

Onde os elefantes, requebrando-se iguais às montanhas durante um terremoto, pedem comida a uma criança, devolvendo o antigo significado à verdade: "Tou cum fome! Que tal um rango?" – e acocoram-se, como que pedindo esmola.

        

Onde os ursos sobem destramente para cima e olham para baixo, aguardando uma ordem do vigia.

        

Onde os morcegos estão pendurados de cabeça pra baixo, como o coração de um russo moderno.

        

Onde o peito do falcão lembra os cirros pouco antes da tempestade.

        

Onde a ave baixa vem arrastando o poente dourado com todo o borralho de seu incêndio.

        

(...)

        

Onde se chega a pensar que as fés são remansosas correntes das ondas, cujo ímpeto são as espécies.

        

E que há tantos bichos neste mundo porque eles sabem ver Deus de diferentes maneiras.

        

Onde as feras cansadas de bramir põem-se em pé e ficam olhando para o céu.

        

Onde a foca, que corre gritando pela jaula, lembra vivamente o martírio dos pecadores.

        

Onde os engraçados asapeixes cuidam um do outro daquele jeito tocante dos fazendeiros interioranos de Gógol.

          

Jardim, Jardim onde o olhar de um bicho diz mais do que montes de livros lidos.

 

Jardim.

 

Onde a águia reclama de alguma coisa como uma criança cansada de reclamar.

        

Onde o laika esbanja seu ardor siberiano, cumprindo o antigo rito da hostilidade tribal diante de uma gata que se lava.

 

(...)

 

Onde nós enxergamos uma árvore-bicho num cervo imóvel.

        

Onde a águia fica virando-nos o pescoço e, de olhos na parede, mantém as asas estranhamente abertas. Não lhe parece a ela que está pairando alto, em cima das serras? Ou está rezando? Ou então está com calor?

        

Onde o alce beija, através da cerca, o búfalo de cornos chatos.

        

Onde os cervos lambem o ferro frio.

        

Onde a foca preta pula pelo chão, apoiando-se nas barbatanas compridas, e faz movimentos do homem preso num saco, tal e qual um monumento de bronze que de repente encontrou em si crises de incontida alegria.

        

Onde o cabeludo "Ivánov" se ergue de um salto e dá patadas no ferro, quando o vigia o chama de "camarada".

        

Onde os leões cochilam, pondo as caras nas patas.

        

Onde os cervos não se cansam de dar chifradas e cabeçadas nas grades.

        

Onde os patos da mesma raça levantam, na jaula seca, um grito unânime após uma breve chuva, como se agradecessem solenemente – será que ela tem patas e bico? – à sua divindade.

        

Onde as galinhas d'angola são, vez por outra, exaltadas moças de pescoço desnudo e descarado e corpo cinza e prata que encomendam suas roupas à mesma costureira que atende as noites estreladas.

        

(...)

        

Onde as mandíbulas da alta lhama branca de olhos pretos, do baixo búfalo de cornos chatos e dos demais ruminantes se movem, regularmente, para a direita e para a esquerda, iguais à vida do país.

        

Onde o rinoceronte traz nos seus olhos brancos e avermelhados a fúria inextinguível de um czar destronado e, único dentre todos os animais, não dissimula seu desprezo pelos humanos, como se fosse tão-só um motim de escravos. E nele se esconde Ivan, o Terrível.

        

Onde as gaivotas de bicos compridos e frios, azuis, como que cercados por óculos olhos têm ares de negociantes internacionais, e a confirmação disso se patenteia naquela arte inata com que elas apanham, voando, a comida jogada às focas.

        

(...)

        

Onde os elefantes esqueceram seus brados de trombeta e gritam como quem se queixa de diarreia. Pode ser que, vendo-nos bem ordinários, eles comecem a achar que é de bom gosto soltarem sons ordinários? Não sei. Ó, montanhas cinzentas e enrugadas! Cobertas de líquenes e ervas nos seus estreitos!

        

Onde nos animais perecem certas belas virtualidades, assim como o Canto das Hostes de Igor inscrito no livro de horas pereceu durante o incêndio de Moscou.

 

 

Velimir (Víktor Vladímirovitch) Khlêbnikov (1885-1922), poeta vanguardista, um dos fundadores e maiores expoentes do futurismo russo. Poemas Ladomir (1919), Rázin (1920), versos experimentais.